domingo, 23 de maio de 2004

enquanto mochileira das galáxias sem guia de viagem nem sequer 30 dólares altairenses pra começar a conhecer as maravilhas do universo exterior ao meu planeta natal, eu te conto que aqui mesmo existem uns recantos maneiros que valem o tempo dispendido e o esforço de alcançá-los sem transporte apropriado (nem mesmo uma poderosa moto de 1939), porém há que se ter ganas de aventura, curiosidade pelo desconhecido, paixão pelo inesperado e algumas roupas sobressalentes.
é sol, é sal, é sul.

quarta-feira, 19 de maio de 2004

I read the news today oh, boy

todos lêem jornais, né mesmo? e assistem noticiários na tv, ouvem no rádio e acompanham todos os acontecimentos do mundo pela internet. inclusive os profissionais da imprensa ou quem é ele mesmo a notícia, ou participante dela (excluindo vítimas fatais, incapacitados ou eremitas, obviamente).

sim, eu também sei o que está acontecendo por aí, e tenho reações e opiniões e palpites e vômitos e pesadelos e ataques de riso ou de solidariedade ou ganas assassinas, eu sou normal.

é que, por mais que a impotência pras mudanças até estimule o alheamento, a sensação de não ter nada com isso, o "que se foda, e daí?", mesmo resistindo a gente acaba se envolvendo com a manutenção do planeta de onde é inquilino, por motivos egoísticos de sobrevivência.

mas ao saber das notícias, o que eu tenho sentido mais do que tudo, mais do que seria aconselhável para a manutenção da ilusão cidadã é uma sensação de espectadora impedida de ver de perto, de aplaudir ou vaiar. uma distância extraterrestre.

e a inutilidade da opinião além do desabafo catártico, a ação sem alcance.

sabe, eu nunca quis carneiros e cabras pastando solenes no meu jardim, não partilhei dos sonhos hippies de comunidades alternativas fechadas e não viveria nem em cidade pequena, gosto da muvuca metropolitana. mas de vez em quando me parece tudo tão inútil, dos objetivos de longo prazo à maioria dos rituais adotados, por obrigação ou costume, nessa vida social que já veio malhada antes d'eu nascer.

quero isso não, obrigada.

esta exposição cotidiana à violência, tão incontrolável, violência física e psíquica, violência da intolerância absurda e desses valores aí que não são meus mas me cobram, tenho que viver me explicando como se devedora fosse? tenho que me submeter a umas regras insanas pra viver pacificamente?

bem, não devia, nesta altura da vida. mas acabo tendo.

falam muito das ditaduras cerceadoras de liberdade, mas juro que não tem tanta diferença na parte da autonomia individual quando um banco manda na sua vida, ou uma empresa de petróleo, ou um consórcio estrangeiro formado para o controle das águas potáveis, energia ou sementes do lugar onde você habita. ou quando uns políticos acabam com o futuro dos TEUS pimpolhos numa depositada básica e relâmpiga dos dólares da educação e saúde nas contas da Suíça.

nosso 1984 e a homogeneidade forçada pela hegemonia, o "consenso" consentido por preguiça e as discordâncias virando "ignorância" ou "rebeldia maligna". como nas ditaduras oficiais, só que nos tempos atuais a polícia é só um braço firme da "Justiça".

(pois é, né? que mania de dar opinião inútil.)

e as certezas? quantas certezas, dio mio. quanto absoluto, quanta Verdade Incontestável.

sim, eu sei como digo besteira, e muita.
também erro muito nas minhas avaliações, na minha defesa do que me parecia justo ou no ataque do que me parecia inaceitável e que acabo descobrindo não ser tão simples assim.
erro muito, mas por isso mesmo tenho tentado julgar menos e desconfiar das certezas.
(tentado, né? o que não me impede de estar cada vez mais intolerante com algumas posturas vigilantes e patrulheiras, algumas opiniões definitivas e algumas inofensivas manifestações de imaturidade e manezice, como a pretensão de "superioridade" intelectual dos que acabaram de descobrir que a Terra é redonda, que surpreeesa!)

eu sou normal e cheia de opiniões definitivas absolutas e incontestavelmente verdadeiras.

e acumulo conhecimento para minha diversão e lazer, mas um bom prato cheio de comida bem feita serve muito mais à Humanidade que todo esse saber acadêmico pretensioso em nossas prateleiras.

(ah, liga não, este desabafo catártico sem destinatários alivia a pressão borbulhante das opiniões reprimidas - tenho andado muito calada pra evitar discussões que não valem o esforço, que não mudam nada.
e minhas opiniões andam muito instáveis, e os espinhos do mundo muito ativos, e eu muito sem saco pra estender conversa).

aliás tenho andado muito descrente de qualquer tipo de intervenção individual, até o mais despretensioso, limitado e cotidiano exercício ativo de cidadania. de que adianta reclamar - mesmo educadamente - do lixo jogado no chão, do espertinho fura-fila, do cara que grita no celular no ônibus? se não me atingir diretamente, eu é que não vou me meter. no máximo, aquela cara de tsctsctsc, e chega de interação.
mas também não fico nervosa, me mordendo por dentro e tendo ataques de fígado.

eu só quero é ser feliz e andar tranquilamente na favela onde eu nasci.

quero ser surfista em Manoku do Oeste, ou no Arpoador mesmo.

quero desenhar feito o Jano, viajando com meus bloquinhos pelo mundo cruel e étonnant.

quero viajar nas telas, ouvir música em fones de ouvido e ignorar, ignorar com afinco e militância ignorativa o que me faz mal. alienação já.

quero curar minhas feridas todas todas todas totalmente.

quero boas notícias, e pra mim no momento há um tipo de boa notícia que ultrapassa todos os outros tipos.

meu amor, cadê você?
vamos pra Andromeda construir nossa cabana de titanato de estrôncio na beira do mar de éter.

segunda-feira, 17 de maio de 2004

acho que peguei gripe pelo msn (virus são virus) e soube de fonte confiável que não há hospitais em Manoku do Oeste.*
os pajés, ou feiticeiros, ou o que seja banham os doentes em infusões de ervas daninhas num tanque coletivo e quem piorar com o frio é abatido a tiros pra ajudar a seleção natural, porque a proliferação de fracos e doentes renitentes faz cair a cotação das ações de ervas daninhas curativas no mercado internacional.
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(*) onde se encontra S trabalhando no momento (hoje não, que tá no tanque).
e sei lá onde fica Manoku do Oeste, mas passa do fim do mundo e não há torres, não há base, as ondas de todo tipo ficam retidas nas montanhas. não há luz elétrica nem civilização sobre rodas, só se chega lá nadando. desviando de tubarões assassinos famintos que comem surfistas.
e lá chegando, os nativos te recebem com flores, danças sensuais e beberagens exóticas e vasculham seus bolsos pra não deixar entrar nenhum resquício de capitalismo selvagem que possa contaminar a pura sociedade primitiva preservada. confiscam cheques, dólares, euros, cartões, comprovantes de depósito em paraísos fiscais, tudo.
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pp: ah sim, esqueci de explicar o funcionamento do msn numa terra sem computadores: vai-se pra boca do vulcão (em atividade moderada) e de lá transmitem-se os sinais de fumaça de longo alcance (sinais binários de fumaça) até o centro urbano mais próximo, na Tailândia, onde são digitalizados e enviados ao destinatário. a resposta segue o caminho inverso. demora um pouco mais que o normal, mas tudo bem, melhor que nada. as cartas levavam anos atravessando mares nos botes.

tatu
tubi ornotubi?
você sabe, eu não acredito em horóscopo. (sempre digo isto, seguido de alguma coisa lida num horóscopo de jornal vagaba qualquer).
mas é que os conselhos gerais amplos abrangentes dos horóscopos podem ser aquele toque que faltava, naquele momento específico. a luzinha que acende na hora certa, um pequeno impulso pra dar coragem. um textinho que parece escrito só pra você, seja você quem for, pelos astros alfabetizados.
por isso, quando leio, não leio só o meu signo, leio vizinhos, ascendente, lua e estrelinhas. tudo. reflexões prontas express sobre a vida diária, pra quem não tem tempo de fabricar os próprios clichês.
mas não é que de vez em quando ajuda? comprei um apartamento assim.
já tinha tentado negociar, desistido por causa do preço, a proprietária não aceitava o meu como parte do pagamento e não ia dar tempo de vender, tudo encerrado.
mas eu li que devia insistir numa coisa que desejava muito, que tudo daria certo, podia confiar nos céus. li depois de ver no mesmo jornal o anúncio do apartamento, de novo. mas o telefone era outro.
liguei, e tudo se transformou. a proprietária passou a bola prum corretor amigo seu, e minhas condições foram aceitas, e loguinho depois eu tava providenciando a mudança.
acontece.
e já viu dica mais redentora que esta, pra qualquer área e momento da vida, mas especialmente naquele minuto em que as dúvidas assaltantes já te levaram todos os pertences?
"chegou a hora de chutar o balde: não há porquê se submeter a situações humilhantes, em que suas necessidades não são respeitadas e onde não há troca harmoniosa e equilibrada.
seja implacável.
Urano, o céu, te dará cobertura".
(uia. ser implacável é tudo numa hora dessas).
então eu leio, mas não que acredite, entende? é só inspiração.
DESTIERRO

gente de un lado y del otro lado, gente
que ya no vive acá ni allá sino en el puente
de un lado el trabajo y del otro los parientes
y ese cordón de luz que cruza continentes
el puente es de aire;
es incoloro, es transparente
el puente que va desde tu pecho al mío
aunque no te tenga enfrente.

Jorge Drexler

(Segunda-feira, Maio 17, 2004 * 10:48 AM * Ciça Giannetti)

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mas já que você vai lá, tem coisa melhor, dela mesma.
minha cumádi, o cumpádi morreu
vancê agora vai ficar sozinha
mas se vancê arresorvê casá, minha cumádi
não se esqueça, a preferença é minha
....

vamo vamo minha cumádi
vamo agora morrê junto
quero vê cumé qui cabe, minha cumádi
numa cova, dois difunto


ah que saudade eu tava de cantar pra vocês.


*


desiste. que algumas pessoas em que você esbarra pela vida, nem adianta. parece que nasceram com a programação incompleta, uma peça faltando, um erro fatal. não adianta apoio, boas condições de desenvolvimento, oportunidades, boa vontade, elas só vão ligar pros seus próprios monstros criados e alimentados em laboratório, com todo cuidado e perseverança. elas vão usar capacetes de realidade virtual com cineminha dentro, e enxergar o mundo à sua imagem e semelhança. elas vão encher o teu saco até que você perceba que não tem nada a fazer ali, não adianta.
que sigam em paz, na direção do infinito horizonte.


*


falando em horizonte, não tem nada a ver mas lembrei que no outro dia cantava músicas de ninar pro Igor e de repente veio aquela do Chapeuzinho Vermelho:

nós somos os caçadores
e nada nos amedronta
damos mil tiros por dia
matamos feras sem conta
varamos toda a floresta
por vales e cercanias
matamos onças pintadas
pacas, tatus e cotias


caramba, praticamente extinguiram a fauna nacional.
este hino bélico, arrasa-quarteirão, multiassassino de animais é musiquinha de disco infantil tradicionalíssimo e eu nunca tinha percebido como é tão educativa e exemplar para a formação das novas gerações.
mas, pelo menos até agora, todos na família que foram submetidos à experiência de ouvir disquinhos infantis sobreviveram às suas influências malignas. (no que dizem respeito a maus tratos de animais, quero dizer, porque há influências mais difíceis de neutralizar em outras áreas.)


*


e falando em música, ó mais:

adeus Sarita
vou partir para a fronteira
levando minha boiada
para vendê-la na feira
com o dinheiro desta venda
eu vou comprar
mais uma linda fazenda
e contigo me casar

no dia do casamento
vai ter baile a noite inteira
a sanfona vai tocar
esta rancheira
os vaqueiros reunidos
cantarão para nós dois
e nossa felicidade
virá depois



*


caraca, hoje bateu uma saudade da Clarinha. nem preciso de analista pra entender porque.
minha cachorrinha fiel e companheira, sempre junto de mim, sempre.

você vai me seguir
aonde quer que eu vá



*


e encerrando a nossa apresentação desta tarde,

olha benzinho, cuidado com seu resfriado
não tome sereno
não tome gelado
o gin é um veneno
se cuide, benzinho, não beba demais
se guarde para mim
a ausência é um sofrimento
e se tiver um momento
me escreva um carinho
e mande o dinheiro do apartamento
que o senhorio não é como eu
não sabe esperar

o amor é uma agonia
vem de noite, vai de dia
é uma alegria
e de repente uma vontade de chorar

domingo, 16 de maio de 2004

é fantástico o show da vida.
tantas janelas.
pra não dizer que não falei de podres: junto-me ao coro dos descontentes com o novo blogger piorado (se é possível complicar, pra que deixar facinho, né mesmo? sem tortura não é tão divertido.)
"Di-Glauber:
O curta-metragem Ninguém assistiu ao formidável enterro de sua última quimera, somente a ingratidão, essa pantera, foi sua companheira inseparável, em que Glauber Rocha registrou o funeral do pintor Di Cavalcanti, em 1976, pode ser visto depois de 25 anos de proibição. Di-Glauber, que não pode ser exibido no país por ordem da Justiça que acatou pedido da filha adotiva do artista plástico, foi parar na internet graças a uma estratégia de João Rocha, sobrinho do cineasta.
Além de poder assistir ao curta, qualquer um pode fazer o download gratuito de Di-Glauber, nome pelo qual ficou conhecido o filme".
(daqui)

e a metade do valor da obra é este nome impressionante (de "Versos íntimos", do Augusto dos Anjos).
é fim-de-semana-não, mas deixa rolar, que a segunda-feira aparece abrindo as janelas, espantando o bode do quarto porque precisa varrer o chão, espanar os móveis, mudar a roupa de cama, e não quer saber de frescura nenhuma atrasando a vida.

sábado, 15 de maio de 2004

por que são simpáticos os sábados de chuva:
porque a gente pode tomar café da manhã grupal fora de hora na Cafeteria Perfeita; porque a gente pode jantar pipoca e pizza e biscoito polvilho e chocolate; porque a gente sempre torce pela equipe que perde na Guerra do Ferro-Velho e vai montar uma empresa de efeitos especiais pra ficar explodindo coisas que nem os Mythbusters; porque a gente ouve música pra abafar o pianista alucinado e pode redescobrir uns discos velhos; e pode adivinhar os pensamentos dos outros (que deverão usar capacetes de folhas de alumínio Rochedo pra se proteger); porque a gente pode usar meias, botas e casaquinho quentinho fofinho pra variar do calor de sempre; e pode conversar horas sobre símbolos, signos e animais sagrados acebolados com batatas fritas, e vírus que fazem os peixes perder o rumo e nadar em círculos e são transmitidos pra cientistas que não conseguem sair do laboratório, e a supremacia da natação, do boxe tailandês e do sexo tântrico sobre a psicanálise, e tantos outros assuntos relevantes; porque a gente pode cochilar no sofá e perguntar sobre a parte que perdeu do filme, e depois contar a parte que outro cochilante perdeu, porque o filme é praticamente um tratamento anti-insônia; porque a gente pode ver uns desenhos repetidos tão legais inesquecíveis desde a remota infância.
mas tem também aqueles momentos em que chove dentro e não há strokes que consertem.
em que outro lugar do mundo você é submetido a um dvd de show dos rolling stones e em seguida exposto a um dos ramones, enquanto se entope de crepes estonteantes e cerveja com limãozinho dentro?
(coisa mais comum? mas seu bar não tem uma parede dessas!)
yonza
eu sei que não devo, eu sei.
mas não dá vontade de abrir um e-mail de lixo eletrônico que tem como subject isto aqui?
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irresistível.

sexta-feira, 14 de maio de 2004

comentários atrasados porque eu tava olhando pro tempo enquanto vocês discutiam aí:

não fui ver os Pixies. já perdi tantas vezes Omelhorshowdaminhavida, pelos motivos mais relevantes ou mais fúteis, que nem esquento.
e se há alguma coisa onde a marca adolescente passa longe dos meus hábitos, é show. não aguento pessoas gritando no meu ouvido, prefiro escutar as músicas. não gosto de bonecos de mola pogando pra cima de mim, de empurração. enfim, se o show me interessa mesmo, estando só ou acompanhada não vejo graça em nada que esteja acontecendo fora do palco, ou que não esteja repercutindo gratificantemente dentro do meu próprio eu individual pessoal e intransferível - divertimentos digressivos só nos intervalos.
mas fiquei com pena de, pela 1738ª vez, não ter conhecido Curitiba.



nebulosa Retângulo Vermelho, a 2.300 anos-luz da Terra (Hubble)
paisagens



ai, essa reação indignada desproporcional e politicamente insensata do Lula, atiçando o fogo do que era fumaça. ai, essa reação indignada das pessoas politicamente sensatas que nunca foram atingidas por indignidades através da imprensa. ai, que difícil é reagir sensatamente quando se está assando no fogo das paixões, políticas ou não.



lá vem mais cota. a correção da exclusão não tinha que começar pelo fim da escolaridade, oras bolas.
deficientes de educação precisam é de cura, de educação de qualidade, pública e gratuita, desde os primeiros anos de vida, democraticamente distribuída pela população e útil para seu futuro de profissionais adultos.
enquanto isso não vem, precisam de bons cursinhos vestibulares digrátis que antes de tudo lhes contem o segredo que os formados já conhecem: diploma não garante emprego, cargo não se consegue por mérito, salário não tem a ver com desempenho, infelizmente, sentimos muito, foi mal aê.



antes que tudo mude, e porque nunca é tarde pra agradecer: Ave, Julio Cesar.



e como vão as coisas por aí? não tenho conversado instantaneamente por meios virtuais, mas eu me lembro de suas existências e peço por vocês em minhas orações. (bem.. se as fizesse, pediria).
mas é que a vida, não sabe? as voltas que o mundo dá, e coisa e tal. afazeres. adesmanchares. arresolveres. aesqueceres. agostares. aempurrares-com-a-barriga. muita realidade analógica pro meu limitado apetite pras realidades.
aí eu pego de repente e leio um monte de blogs de uma vez e é como se trocasse uma idéia, umas figurinhas, um abraço coletivo. saudades. fiquem bem. beijão, té outro dia.

quinta-feira, 13 de maio de 2004

das cartas (3):

é a família reunida em Brasília pro aniversário do meu tio. (S fotografou quase tudo e pra variar censurou a publicação das fotos em que aparece. ai esse pavor de lhe roubarem a alma que não passa).
estas comportadinhas cheias de pose pra posteridade são da câmera dos meus pais, que eu esqueci a minha. se me mandarem outras boas eu repasso ou até boto no blog (depende do nível de autocontrole - ou ou seja, de álcool no sangue - dos fotografados, porque a festa durou um dia inteiro).
não ia a Brasília desde os anos 80, acho. o povo lá gosta da cidade, a primaiada só vem ao Rio em ocasiões especiais, como enterros. só conheci a maioria dos filhos deles agora.
gosto de rever meus cantinhos da infância e adolescência - fui pra lá aos 8 e voltei aos 15 anos - mas aquela é uma cidade, como direi, desnecessária. depois de milênios de ausência ficam te mostrando prédios, aqui é o CPMG, ali é o CEPLAPLAN Norte, lá é o GMFPQP etcetcetc. que tão interessante, isto.
e como em toda província, seus habitantes acham os prédios residenciais do Sudoeste, mais altos que o gabarito original e muito mais apertadinhos (mudanças autorizadas na revisão do Plano Piloto), "mais modernos". caramba, que inversão de tudo.
mas tantos se encontraram naquela vida, há gosto pra qualquer coisa neste vasto diversificado mundo de diós.



pois você sabe que não tenho medida e quero abraçar o mundo com as pernas, como se dizia outroramente. no meu projeto de tese comparava seis países africanos e seus processos de independência política (com e sem aspas), queria dar conta de praticamente um continente, ou da totalidade de formas de descolonização já tentadas.. mas no final venceu a praticidade, porque o dia do ponto final sempre chega, e fiquei só na Guiné-Bissau (mas com extensões eventuais às outras ex-colônias portuguesas sempre que houve oportunidade, pra não perder o costume de estender).


mambo-tango


tem horas em que a mardita derruba sim, mas quoi faire? não sei quanto tempo se aguenta nessas condições extremas de temperatura e pressão, o futuro é insondável e tou candando e agando pra ele no momento. mas o que me salva é ter tanta, mas tanta, mas tanta coisa que me interessa nesta vida, quando vejo o tempo passou e já é dia de ser feliz novamente, rá!



por falar nisso a família está mais pós-graduada, a Lu acaba a tese dela de doutorado e os piripaques estão findos nesta estação. estão voltando as flores, abriremos os salões em breve, das janelas se descortinarão plácidas paisagens e as refeições deixarão de estragar na geladeira.
mas o vizinho pianista infernal continua sua experiência de tortura de massas através da anti-música, demodosquê de vez em quando ainda voam sapatos descontrolados contra as paredes.



é o temor da vala comum da internet, a falta de controle do que é publicado. ele não me deixa dizer nada sobre isto.
mas sabe o que eu acho? que tudo o que é dito, mesmo pessoalmente, foi pro mundo, danou-se, não se tem mesmo mais nenhum controle. é absorvido de qualquer jeito, como saber quem entende (e como entende) o que queremos dizer? comunicação é o reino do ruído, são as caixas pretas das subjetividades tentando trocar sinais sem um código comum, tudo vai ser reinterpretado a partir deste "entendimento" truncado, sempre a história do "telefone sem fio", aquela brincadeira de passar adiante o que foi sussurrado rapidamente no nosso ouvido só pra constatar a distorção da mensagem.
então não se tem controle nunca. que cada um ache o que quiser achar.


Little Mermaid, H.C. Andersen, by E. Dulac (b.1882 - d.1953)


o que acontece mesmo, não se pode saber. mas o que aconteceria, o que talvez aconteça, isto me pertence porque é do domínio da imaginação. então é ali que me espalho, tecendo enredos com aqueles fios de algodão doce e construindo montanhas com pedras de isopor.



o mais impressionante é ver o passado contado pela boca do presente, gente pra quem nada mudou faz mais de meio século, falando da própria vida que também foi a vida dos seus pais e avós - assim é terrivelmente fácil tratar seus depoimentos atuais como História.
e por falar nisso, eu confesso que gostei mais do outro, do mais feliz (tão parecido com S, será que todos os nascidos lá por aquelas terras estranhas são assim?)


Rodrigo de la Serna


e você sabe, é inesquecível. pode sumir nas brumas do horizonte, pode mergulhar no magma ou catapultar-se até os limites do universo conhecido que não adianta, é parte da sua vida e sempre será.
uma das coisas mais legais e fundamentais que aprendi nos últimos tempos foi isto, não negar minhas experiências. mas não que me sirvam depois, nem pra tentar repetir, nem pra evitar repetir. é só um modo de ver do que somos capazes, para o bem ou para o mal, e entender como todo julgamento no fundo é pretensioso e imaturo.



mas nos intervalos entre idas e vindas tá tudo diferente, como uma rotina de mulher de piloto: como está o tempo aí em Honokuku? e Pirilampênia do Norte, tá mais desenvolvida? ah que lindo, então você me trouxe um potinho de neve de Los Glaciares, meu bem? pena que derreteu.
nada é difícil demais pra Poliana Maria, você não sabe disso?


foto do Taperouge


não achei irresponsabilidade não, achei uma decisão de muita coragem e amor pela vida.
não há o que derrube esta vontade quando ela surge, e eu acho que quem deseja muito faz melhor, com mais cuidado, com dedicação total, é a maior criação da sua vida e é irreversível, você tira forças lá de dentro pra se superar e surpreender o mundo.
e ninguém tem que dar palpite, a gente só tem que desejar muito sucesso nesta empreitada, e confiar que tudo vá dar certo, de agora até sempre sempre e sempre.