agora eu sei que as palavras impronunciáveis escorrem pelo nariz e, uma vez na luz do mundo, cobrem as cidades com seus trovões em decibéis assustadores.
não, não era isso o que eu queria dizer.
só queria dizer que acordo impressionada com o enorme barulho do desconhecido que ruge lá de dentro, o boi cruel da cara preta que arranca braços de criancinhas e come maltrapilhos acuados em becos.
também não ia dizer isso, mas já que disse não vou explicar melhor.
eles não querem nada mais que um pouco de esperança, e escavucam chãos e paredes, arrancam tacos, incendeiam o mato em volta da casa, levitam sobre a vila com uma lupa e tudo o que encontram são escombros do que destróem todos os dias, malditos esperançosos.
e eu, que só digo o que não quero, faria melhor se fosse até a praia pegar umas ondas.
Docebel correndo pela rua imaginando campos de margaridas, aspirando vapor de gasolina do posto e sorrindo feliz pro sol das duas da tarde, os pezinhos colando no asfalto derretido.
Docebel é idiota de nascença.
já lhe disse que tenho o direito de usar meus superpoderes para eliminar alguns incômodos da minha vida. e uso, mas com moderação.
quando meu horóscopo recomenda: "hoje é dia de cianureto no cafezinho das visitas inoportunas", eu ponho uma vassoura atrás da porta e invento uma desculpa amável e claramente esfarrapada pra sair rapidinho.
é o seu jeito de professor, é a sua falta de jeito pra todo o resto, acho que são os olhos que não piscam, presos num ponto do ar. é o clarão da estrela no fundo do poço, é a surpresa armada no alto da árvore, é a chuva de sustos em pétalas e os carinhos amarrados como lenços saindo da cartola, a viagem sem fim.
meu bem-querer.
domingo, 17 de abril de 2005
domingo, 10 de abril de 2005
tem um sagüizinho de rabo listrado morando na mangueira aqui embaixo da janela.
ele pia como quem manda beijos, como piam os morcegos, como piam altíssimo os filhotes de passarinho em suas fomes insaciáveis.
só ontem lembrei que morcegos não se manifestam de dia e, procurando um ninho, achei um rabo e depois uma cara pequena e familiar, de parente distante, me olhando de longe.
ele pia e abre janelas entre as folhas da mangueira.
eu também lhe mandei beijos, e ficamos assim trocando mensagens amorosas por um longo tempo:
"como vão todos?" "bem, as crianças cresceram e se enfiaram nos buracos do mundo" "encontrei um primo seu faz tempo, na Gávea, pegando frutas no quintal da Escola Parque" "aquele morreu no fim do ano, de pedrada, e foi parar numa panela" "ah, esta cidade e seus famintos sem sentimentos solidários para com outras espécies em extinção..."
mas tive que abandonar a conversa porque chegou a hora de viajar. não houve tempo de lhe dar conselhos, o que por um lado sempre é ótimo, mas por outro, sei lá, eu lhe teria avisado para não aceitar sobras de comida humana, fast food, batata frita redonda e ovinhos de amendoim.
ele pia como quem manda beijos, como piam os morcegos, como piam altíssimo os filhotes de passarinho em suas fomes insaciáveis.
só ontem lembrei que morcegos não se manifestam de dia e, procurando um ninho, achei um rabo e depois uma cara pequena e familiar, de parente distante, me olhando de longe.
ele pia e abre janelas entre as folhas da mangueira.
eu também lhe mandei beijos, e ficamos assim trocando mensagens amorosas por um longo tempo:
"como vão todos?" "bem, as crianças cresceram e se enfiaram nos buracos do mundo" "encontrei um primo seu faz tempo, na Gávea, pegando frutas no quintal da Escola Parque" "aquele morreu no fim do ano, de pedrada, e foi parar numa panela" "ah, esta cidade e seus famintos sem sentimentos solidários para com outras espécies em extinção..."
mas tive que abandonar a conversa porque chegou a hora de viajar. não houve tempo de lhe dar conselhos, o que por um lado sempre é ótimo, mas por outro, sei lá, eu lhe teria avisado para não aceitar sobras de comida humana, fast food, batata frita redonda e ovinhos de amendoim.
quinta-feira, 20 de janeiro de 2005
Maíta e Gauguin são praticamente um casal. Tirando o fato de que ela é mula e ele cachorro, no mais são muito parecidos e comungam dos mesmos ideais e crenças, inclusive a de que são os verdadeiros donos da casa. (E talvez sejam, por direito de usucapião, já que passamos parte do tempo nos ares. Mas não podemos nos esquecer dos gatos Tica e Teco, donos da parte interna por direito de ocupação).
E observando o fato de que somos também um casal misto de gaivota e leão-marinho-voador - e tudo o mais nos une, resolvemos festejar o ano que se inicia com uma cerimônia de casamento coletivo (o que não implica em sexo com animais, bem entendido).
Enfeitamos a casa com hibiscos vermelhos e estrelas do mar, catamos na despensa as guloseimas para um banquete tropical e nos fantasiamos de noivos com os objetos e tecidos disponíveis, e diante da lua juramos amor eterno. Diante do sol também, pra não desequilibrar.
E hoje, diante dos raios e trovões de Iansã, juramos que a eternidade é agora e não vamos desperdiçar nem um minuto das nossas vidas. Você sabe, até as ilhas paradisíacas afundam.
(Ah, crianças: não tentem nos imitar sem a supervisão de um adulto, a falta de criatividade pode lhes ser fatal.)
Você pode não acreditar, por causa de todo esse clima de férias, mas tenho trabalhado mais que a Maíta. E mesmo gostando muito do que ando fazendo, tem dias que acho que toda a energia escapou por um furinho não localizado, e só esta vida insular animada me ajuda a levantar.
O resultado mais imediato da fadiga é uma certa aversão pelo computador no tempo de lazer. Parei mesmo.
Só vejo o indispensável e recuso convites. Mas quando estou na minha sede copacabanense, no meio do tumulto megalopolitano que ironicamente chamam de civilização, o computador me parece um refúgio de paz, tranqüilidade e ficção, como aquelas diversões futuristas onanistas dos filmes antigos. E volto aqui para dizer que não voltarei mais, mas você sabe que não é verdade.
Então, até um dia.
E observando o fato de que somos também um casal misto de gaivota e leão-marinho-voador - e tudo o mais nos une, resolvemos festejar o ano que se inicia com uma cerimônia de casamento coletivo (o que não implica em sexo com animais, bem entendido).
Enfeitamos a casa com hibiscos vermelhos e estrelas do mar, catamos na despensa as guloseimas para um banquete tropical e nos fantasiamos de noivos com os objetos e tecidos disponíveis, e diante da lua juramos amor eterno. Diante do sol também, pra não desequilibrar.
E hoje, diante dos raios e trovões de Iansã, juramos que a eternidade é agora e não vamos desperdiçar nem um minuto das nossas vidas. Você sabe, até as ilhas paradisíacas afundam.
(Ah, crianças: não tentem nos imitar sem a supervisão de um adulto, a falta de criatividade pode lhes ser fatal.)
Você pode não acreditar, por causa de todo esse clima de férias, mas tenho trabalhado mais que a Maíta. E mesmo gostando muito do que ando fazendo, tem dias que acho que toda a energia escapou por um furinho não localizado, e só esta vida insular animada me ajuda a levantar.
O resultado mais imediato da fadiga é uma certa aversão pelo computador no tempo de lazer. Parei mesmo.
Só vejo o indispensável e recuso convites. Mas quando estou na minha sede copacabanense, no meio do tumulto megalopolitano que ironicamente chamam de civilização, o computador me parece um refúgio de paz, tranqüilidade e ficção, como aquelas diversões futuristas onanistas dos filmes antigos. E volto aqui para dizer que não voltarei mais, mas você sabe que não é verdade.
Então, até um dia.
domingo, 21 de novembro de 2004
Quando dezembro chegar eu amanhecerei na minha ilha por longa temporada.
Lá sou esposa do rei, e rainha, e mando no tempo, nas marés, nas ondas inclusive, no movimento ondulante dos pedestres e veículos e no sono dos cachorros que tomam sol na rua.
Tenho uma casinha na árvore e aquela maior em terra bem firme, guardada por Gauguin, com uma janela azul que dá para o lugar onde nasci e outra verde para onde morrerei.
Quando chove muito, ou os vulcões das redondezas regurgitam helicópteros engolidos na última reportagem, nós cantamos com os nativos os cantos tradicionais para acalmar os deuses enquanto salvamos os trabalhos e protegemos os computadores dos picos de energia.
Divido as instalações com um pesquisador louco, tão louco quanto pode ser um cientista louco, capaz de voltar das entranhas do vulcão cheio de ervas miraculosas, e do mar cheio de águas marinhas e pérolas e corais, e do muito longe cheio de presentes de antigas civilizações há muito ausentes.
E quando estou aqui distante eu não posso morrer, porque tenho de voltar sempre e sempre até que a lava faça o mar ferver e a água evaporar e a terra seque sob as cinzas e não haja mais chão firme sob aquele sol nublado por helicópteros desgovernados.
Ah, mas ainda falta muito pro fim do mundo.
Você sabe, não é aconselhável viver sem cafeína. Eu disse à Maíta: não se descuide das compras na minha ausência. Mas eles não ligam, têm um chá forte, uma espécie de droga líquida esverdeada que se equipara ao café e a outras drogas mais leves, mas não me satisfaz. Porque, o gosto, entende? tem gosto de capim com um tantinho de lama, e com açúcar só piora.
Lá existe o transporte em lombo de burro. É muito prático e moderno, quase não dá despesa e atravessa qualquer lamaçal sem atolar. Temos um burro próprio, com tração nas 4 patas. Trocamos por duas picapes.
Falando assim até parece que é um lugar selvagem, mas não se iluda: tem a melhor vida noturna do universo, para todos os gostos: inclusive a lua à beira-mar, atualmente minha vida noturna preferida.
Sabe, a gente não sente falta nem das músicas que mais gostava.
Tem umas fases em que se enjoa em pacote, de várias coisas.
Mas não enjoamos do mundo, só de coisas do mundo que existem apenas para incomodar, como por exemplo, diga lá você. Prefiro manter silêncio sobre esses assuntos delicados.

Mas não, não pense que, por habitarmos o paraíso em certas épocas do ano, abandonamos a luta e os esforços pra melhorar o universo e tudo o mais. (Afinal, tudo depende de nós, se pararmos tudo desaba, não é, Megalô?)
De lá também são sentidas as vibrações na Força, mas fazemos o que podemos para que as águas sejam mais azuis e os coqueiros mais verdes. Entenda o que quiser, mas não subestime o poder do desejo.
Um beijo e até mais.
segunda-feira, 15 de novembro de 2004
fiquei imaginando Sylvia Plath planejando o dia seguinte ao de seu suicídio, o café da manhã das crianças deixado ao lado das camas, quanta preocupação com o futuro.
*
e o futuro, como vai? mapas secretos de terras a descobrir naquela mala em cima do armário.
um dia seguiremos avante e para o alto atrás de maiores novidades, mas não agora, que ainda estamos no presente.
*
mas você não percebe? o ar tem circulado mais leve pelos ambientes tateáveis e pelos cantos da internet.
(note bem a ausência de ácaros, você não espirra mais por quinze minutos seguidos quando entra nas salas de chat).
acho que conseguimos nos livrar de toda aquela gente cinzenta, ranzinza, pesada, eternamente TPMzada e deprimida, dos que fazem da sua dor um manifesto por um mundo pior. (não falo dos doentes e prejudicados pela vida, falo dos incompetentes que apenas criticam, porque não sabem fazer).
*
mas como dizia, fiquei imaginando que os diários eram escritos para serem publicados, mesmo no meio da maior dilaceração.
que triste esta necessidade de se fazer ouvir.
a ilusão de controlar a percepção alheia da própria imagem, mesmo depois de tudo perder o sentido.
de algum jeito, humanos são mal programados. ou nos desviamos, não era pra vivermos assim.
*
mas já que vivemos, contamos em diários. ou no blog.
*
o que eu gosto em você é que entende bem a desimportância das coisas.
*
das realmente desimportantes, quero dizer. como palavras num blog.
*
estava pensando na tal da construção da imagem. eu vi, ninguém me contou: perguntavam sobre os primeiros livros lidos na infância, e nas respostas só Heidegger ou Joyce ou Poe ou equivalentes. coitadas dessas crianças, que adultos viraram.
*
mas somos livres para criar, e devemos ser livres para criar.
*
por falar nisso, me traga um presente inesperado.
*
do outro lado do mundo, da Austrália, da Nova Zelândia. da Tonga da mironga do cabuletê, onde o ano nasce primeiro. da ilha de Páscoa ou de Galápagos, de um lugar bem estranho.
*
um dinossaurinho daqueles, um ornitorrinco filhote. (não, isto seria esperado).
*
então me traga uns planos para o futuro próximo, o próximo feriado, talvez.
umas idéias e tintas pra decorar a casa de Gauguin, um balanço para a mangueira.
peixinhos dourados.
*
o que importa de verdade, você sabe.
*
e o futuro, como vai? mapas secretos de terras a descobrir naquela mala em cima do armário.
um dia seguiremos avante e para o alto atrás de maiores novidades, mas não agora, que ainda estamos no presente.
*
mas você não percebe? o ar tem circulado mais leve pelos ambientes tateáveis e pelos cantos da internet.
(note bem a ausência de ácaros, você não espirra mais por quinze minutos seguidos quando entra nas salas de chat).
acho que conseguimos nos livrar de toda aquela gente cinzenta, ranzinza, pesada, eternamente TPMzada e deprimida, dos que fazem da sua dor um manifesto por um mundo pior. (não falo dos doentes e prejudicados pela vida, falo dos incompetentes que apenas criticam, porque não sabem fazer).
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mas como dizia, fiquei imaginando que os diários eram escritos para serem publicados, mesmo no meio da maior dilaceração.
que triste esta necessidade de se fazer ouvir.
a ilusão de controlar a percepção alheia da própria imagem, mesmo depois de tudo perder o sentido.
de algum jeito, humanos são mal programados. ou nos desviamos, não era pra vivermos assim.
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mas já que vivemos, contamos em diários. ou no blog.
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o que eu gosto em você é que entende bem a desimportância das coisas.
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das realmente desimportantes, quero dizer. como palavras num blog.
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estava pensando na tal da construção da imagem. eu vi, ninguém me contou: perguntavam sobre os primeiros livros lidos na infância, e nas respostas só Heidegger ou Joyce ou Poe ou equivalentes. coitadas dessas crianças, que adultos viraram.
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mas somos livres para criar, e devemos ser livres para criar.
*
por falar nisso, me traga um presente inesperado.
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do outro lado do mundo, da Austrália, da Nova Zelândia. da Tonga da mironga do cabuletê, onde o ano nasce primeiro. da ilha de Páscoa ou de Galápagos, de um lugar bem estranho.
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um dinossaurinho daqueles, um ornitorrinco filhote. (não, isto seria esperado).
*
então me traga uns planos para o futuro próximo, o próximo feriado, talvez.
umas idéias e tintas pra decorar a casa de Gauguin, um balanço para a mangueira.
peixinhos dourados.
*
o que importa de verdade, você sabe.
sábado, 13 de novembro de 2004
webmaster
*
a fome de informação e a sede de conhecimento:
a maior vantagem das rádios de internet, dos mp3 e de toda mídia de som digital é poder ver imediatamente os créditos das músicas.
(mas nas rádios tradicionais a conexão com os ouvintes era sempre estável, não era? se não me falha a memória, como a do computador).
o que gosto nas rádios em geral é ouvir pela primeira vez alguma coisa legal e pela 3465ª vez alguma coisa amada, como um presente dos céus sonoros só pra mim (com dedicatória e tudo).
por falar nisso, descobri que no momento gosto de Beck.
*
há 50 anos
*
tá bom, eu explico melhor.
mas é a última vez, aproveite:
eu não moro nem trabalho no alto da favela.
num bairro e no outro, distantes e em quase tudo diferentes, por essas coincidências do destino sou vizinha, mais ou menos próxima, de comunidades disputadas por diversas lideranças, digamos assim.
no trabalho, um pouco mais próxima do que seria recomendável para a saúde, mas não ganho adicional de insegurança.
no lar, do lado iluminado da Força - que é uma uma pedra lisa e íngreme - sem janelas abertas para o crime (a não ser o do pianista assassino de paciências do apartamento em frente).
e no entanto acredite: espero viver até os cem anos, e com um corpinho de 90, nesta mesma bat cidade, nestes mesmos bat arredores.
até porque hoje aquele passarinho (gosto de pensar que é o mesmo) visitou minha janela de novo, o que é um sinal de que ainda sobrevivem os passarinhos por aqui.
*
Rio, terra de contrastes
onde você pode ouvir beatles e sons alternativos em plena feira nordestina, saboreando devassas e/ou magníficas com as delicadezas & brutalidades comestíveis de um box típico (tipo assim como são típicos os lugares nordestinos em uma novela global).
e sair comendo curau e pé-de-moleque no papel de café-da-manhã.
*
filme noir.
""""
` ´
^
~
de noite eu sinto saudades de Moorea
mas sonho com as ruelas medievais de Assis - e o sol, o mesmo sol dos dois lugares me torrando a cabeça.
também tenho nostalgia do sol dos extremos, que nunca se põe ou nunca chega.
hoje tinha uma foca ronronando no telefone, eu entendo bem o que dizem as focas.
mas não vou voltar tão cedo.
*
invejo suas asas, as minhas são transparentes demais, instáveis demais, me deixam na mão de repente.
*
Mutarelli
sábado, 6 de novembro de 2004
derradeira estação
não quero mais ouvir sua batucada
digital
(informática metralha
sub-UZI equipadinha com cartucho musical
etc)
em Faluja pelo menos há um sentido, uma lógica, uns inimigos circulando pra lá e pra cá.
aqui até os cachorrinhos fofos matam velhinhas e posam pros jornais com as meigas linguinhas lambuzadas de sangue.
mas pensa que eu asso a mente nas chamas do inferno cotidiano? pois o vapor tremulante que se desprende do cimento fervente provoca miragens, e vejo coisas lindas.
não sei quantas vezes subi o morro cantando.
*
falando nisso, o puxa-saquismo é uma coisa abjeta.
*
(não tem nada com isso, apenas lembrei).
*
existe uma espécie de dependência entre atacante e vítima, se é que me entende, e tudo flui naquela gosma.
*
argh.
*
mas funciona, funciona.
abjetamente funcional.
*
(reparemos que puxa-saquismo não é o mesmo que elogio.
geralmente somos generosos e até perdulários nas críticas e mãos-de-vaca pros elogios.
porque não queremos parecer puxa-sacos abjetos, é compreensível.
mas temos que equilibrar melhor isso, pra não sair inventando defeito onde não tem e disfarçando nossa admiração embaraçosa).
*
aliás, inventar defeito pra tudo e todos que não correspondem às nossas mais viajantes expectativas: praticamente um esporte planetário.
*
é até engraçado assistir o processo de completar as lacunas do desconhecido com o que já é sabido e mastigado, a aplicação de estereótipos para enquadrar pessoas e atos inexplicáveis em modelos compreensíveis pelas mentes simples e a crença inabalável no poder da própria imaginação.
*
foi assim que Bush se reelegeu, parece.
os crentes, os simples, os tementes do desconhecido e um mundo decifradinho em dez lições.
*
mas no poder da imaginação pode-se acreditar sem censura, quando seu ofício é inventar mundos paralelos e eles são tão mais fáceis de habitar.
*
e também é inevitável reconhecer que todos enquadramos pessoas nos nossos preconceitos, e fazemos quase tudo o que criticamos, porque viver na prática conforme as boas regras é muito complicado mesmo e decifrar gente é tarefa pra uma vida longa.
*****
linka o meu que eu linko o seu:
entabular interações indiretas com carentes de popularidade, afeto digital e/ou discípulos pode fazer mal à paciência.
*
blogs e outros canais virtuais são espaços para as pessoas dizerem o que pensam.
e muitas vezes não precisamos ouvir uma segunda opinião.
*
pode-se tentar dizer o que os outros pensam, há quem prefira.
*
ah, e se esquecemos de botar aquele ícone indicador de ironia, as pessoas que mandam cartas de protesto contra os artigos do Agamenon Mendes Pedreira ficam sem entender muito bem.
*
também pode-se tentar manter comentários públicos e blog afastados como se fossem pimenta & olhos, imagina receber um assim
oie!!
nosss mto loko u blog!
passa lah nu mew dps, oks?
flw
=*******
definitivamente, não ia prestar.
*
alguns contatos imediatos de avançados graus ainda devem ser mantidos, porque Denise ainda está chamando.
mas é um grande alívio o encerramento de uma fase de confusão entre discursos fictícios e identidade, entre facilidade de comunicação e amizade.
a fase de máscaras, máscaras, máscaras e efeitos especiais.
*
restaria apenas o saudável da proposta.
*
vivendo e aprendendo.
*
sonhar não custa nada.
*
mas não, ainda não acabou.
quanto a mim, não é verdade que não leio mais blogs.
alguns eu leio com imenso prazer, e são descobertas recentes.
alguns eu li desde o início dos tempos e lerei enquanto existirem.
meia dúzia no total, e não é um modo de dizer.
*
mas você sabe, o mundo muda quando o eixo dos seus interesses se desloca para um universo desblogado.
não quero mais ouvir sua batucada
digital
(informática metralha
sub-UZI equipadinha com cartucho musical
etc)
em Faluja pelo menos há um sentido, uma lógica, uns inimigos circulando pra lá e pra cá.
aqui até os cachorrinhos fofos matam velhinhas e posam pros jornais com as meigas linguinhas lambuzadas de sangue.
mas pensa que eu asso a mente nas chamas do inferno cotidiano? pois o vapor tremulante que se desprende do cimento fervente provoca miragens, e vejo coisas lindas.
não sei quantas vezes subi o morro cantando.
*
falando nisso, o puxa-saquismo é uma coisa abjeta.
*
(não tem nada com isso, apenas lembrei).
*
existe uma espécie de dependência entre atacante e vítima, se é que me entende, e tudo flui naquela gosma.
*
argh.
*
mas funciona, funciona.
abjetamente funcional.
*
(reparemos que puxa-saquismo não é o mesmo que elogio.
geralmente somos generosos e até perdulários nas críticas e mãos-de-vaca pros elogios.
porque não queremos parecer puxa-sacos abjetos, é compreensível.
mas temos que equilibrar melhor isso, pra não sair inventando defeito onde não tem e disfarçando nossa admiração embaraçosa).
*
aliás, inventar defeito pra tudo e todos que não correspondem às nossas mais viajantes expectativas: praticamente um esporte planetário.
*
é até engraçado assistir o processo de completar as lacunas do desconhecido com o que já é sabido e mastigado, a aplicação de estereótipos para enquadrar pessoas e atos inexplicáveis em modelos compreensíveis pelas mentes simples e a crença inabalável no poder da própria imaginação.
*
foi assim que Bush se reelegeu, parece.
os crentes, os simples, os tementes do desconhecido e um mundo decifradinho em dez lições.
*
mas no poder da imaginação pode-se acreditar sem censura, quando seu ofício é inventar mundos paralelos e eles são tão mais fáceis de habitar.
*
e também é inevitável reconhecer que todos enquadramos pessoas nos nossos preconceitos, e fazemos quase tudo o que criticamos, porque viver na prática conforme as boas regras é muito complicado mesmo e decifrar gente é tarefa pra uma vida longa.
*****
linka o meu que eu linko o seu:
entabular interações indiretas com carentes de popularidade, afeto digital e/ou discípulos pode fazer mal à paciência.
*
blogs e outros canais virtuais são espaços para as pessoas dizerem o que pensam.
e muitas vezes não precisamos ouvir uma segunda opinião.
*
pode-se tentar dizer o que os outros pensam, há quem prefira.
*
ah, e se esquecemos de botar aquele ícone indicador de ironia, as pessoas que mandam cartas de protesto contra os artigos do Agamenon Mendes Pedreira ficam sem entender muito bem.
*
também pode-se tentar manter comentários públicos e blog afastados como se fossem pimenta & olhos, imagina receber um assim
oie!!
nosss mto loko u blog!
passa lah nu mew dps, oks?
flw
=*******
definitivamente, não ia prestar.
*
alguns contatos imediatos de avançados graus ainda devem ser mantidos, porque Denise ainda está chamando.
mas é um grande alívio o encerramento de uma fase de confusão entre discursos fictícios e identidade, entre facilidade de comunicação e amizade.
a fase de máscaras, máscaras, máscaras e efeitos especiais.
*
restaria apenas o saudável da proposta.
*
vivendo e aprendendo.
*
sonhar não custa nada.
*
mas não, ainda não acabou.
quanto a mim, não é verdade que não leio mais blogs.
alguns eu leio com imenso prazer, e são descobertas recentes.
alguns eu li desde o início dos tempos e lerei enquanto existirem.
meia dúzia no total, e não é um modo de dizer.
*
mas você sabe, o mundo muda quando o eixo dos seus interesses se desloca para um universo desblogado.
terça-feira, 26 de outubro de 2004
Notícias da Ilha dos Caras:
Mariposas de outono.
Neste fim-de-semana do Aviador, homenageamos o Barão Vermelho (versão Snoopy), por causas exclusivamente estéticas, na figura argentina de S, nosso piloto particular. Que é, na verdade, um leão-marinho voador da Patagônia. Prateado, como soem ser os argentinos.
Homenagem comme il faut, rodeando a Tour Eiffel como um aviãozinho de carrossel, o Chapéu Mexicano ou as mariposa quando chega o frio dando vorta em vorta da lâmpida pra se esquentá. Paris é uma festa.
A professora Bete saiu(-se) bem no filme.
Sinto-me como se inventora da técnica de misturar vídeo e animação fosse. De Roger Rabbit pra cima. E nem ao menos editei a parada. Porém meu personagem tomou forma, voz e personalidade, e entrevistou um antigo professor do mestrado (que participou da minha banca e lembrava da minha dissertação!) sobre Paulo Freire, um mito da minha vida. E na gravação ele aceitou contracenar e cumprimentar uma cadeira vazia onde mais tarde eu sentaria a Bete.
Confesso que chorei. O que não é difícil, mas dessa vez tive muitos motivos.
Feng Shui para desgovernados
Perdeu a hora? A chave de casa? O freio? O chão? As palavras? A memória (que música era esta mesmo)?
Vamos dar um jeito nesta bagunça.
Um dia inteiro de remexeção nos armários, até tirar uma casa sobrante de dentro da outra.
Você entendeu. Jogar fora, atirar aos lobos, passar adiante, vender pro brechó, afogar no rio. Coisas, eu digo.
O que você salvaria num incêndio? Fora as vidas, claro, todas as sete. Eu, os álbuns de fotos (que servidor nenhum pode apagar) e o portfólio dos desenhos. Ah, e os documentos, pra não ter aquele trabalhão de novo. Memórias. Talvez alguns objetinhos muito importantes pra sobrevivência visual diária, que costumam classificar como decoração, mas você sabe, são outra coisa.
Muito já falei sobre este assunto, e insisto: jogar fora é o que há. Mais uma vez, abrir espaço pro que vem por aí. (Tão profundo, isso. Oriental por demais). E se repete numa rotina de prazer que não dá conta do que foi juntado e continua sendo. Juntar só para ter a alegria de jogar pela janela como papel picado de ano novo.
Sê breve na ausência
Vai tudo bem, o sol me acorda, os hibiscos florescem, o mar bate nas pedras, as gaivotas catam conchinhas, os gatos dormem, os cachorros fazem xixi na sala. Mas tudo está como suspenso num quadro parado esperando teu retorno, não demora.
Mariposas de outono.
Neste fim-de-semana do Aviador, homenageamos o Barão Vermelho (versão Snoopy), por causas exclusivamente estéticas, na figura argentina de S, nosso piloto particular. Que é, na verdade, um leão-marinho voador da Patagônia. Prateado, como soem ser os argentinos.
Homenagem comme il faut, rodeando a Tour Eiffel como um aviãozinho de carrossel, o Chapéu Mexicano ou as mariposa quando chega o frio dando vorta em vorta da lâmpida pra se esquentá. Paris é uma festa.
A professora Bete saiu(-se) bem no filme.
Sinto-me como se inventora da técnica de misturar vídeo e animação fosse. De Roger Rabbit pra cima. E nem ao menos editei a parada. Porém meu personagem tomou forma, voz e personalidade, e entrevistou um antigo professor do mestrado (que participou da minha banca e lembrava da minha dissertação!) sobre Paulo Freire, um mito da minha vida. E na gravação ele aceitou contracenar e cumprimentar uma cadeira vazia onde mais tarde eu sentaria a Bete.
Confesso que chorei. O que não é difícil, mas dessa vez tive muitos motivos.
Feng Shui para desgovernados
Perdeu a hora? A chave de casa? O freio? O chão? As palavras? A memória (que música era esta mesmo)?
Vamos dar um jeito nesta bagunça.
Um dia inteiro de remexeção nos armários, até tirar uma casa sobrante de dentro da outra.
Você entendeu. Jogar fora, atirar aos lobos, passar adiante, vender pro brechó, afogar no rio. Coisas, eu digo.
O que você salvaria num incêndio? Fora as vidas, claro, todas as sete. Eu, os álbuns de fotos (que servidor nenhum pode apagar) e o portfólio dos desenhos. Ah, e os documentos, pra não ter aquele trabalhão de novo. Memórias. Talvez alguns objetinhos muito importantes pra sobrevivência visual diária, que costumam classificar como decoração, mas você sabe, são outra coisa.
Muito já falei sobre este assunto, e insisto: jogar fora é o que há. Mais uma vez, abrir espaço pro que vem por aí. (Tão profundo, isso. Oriental por demais). E se repete numa rotina de prazer que não dá conta do que foi juntado e continua sendo. Juntar só para ter a alegria de jogar pela janela como papel picado de ano novo.
Sê breve na ausência
Vai tudo bem, o sol me acorda, os hibiscos florescem, o mar bate nas pedras, as gaivotas catam conchinhas, os gatos dormem, os cachorros fazem xixi na sala. Mas tudo está como suspenso num quadro parado esperando teu retorno, não demora.
terça-feira, 12 de outubro de 2004
E eis que chega a vez do mblog subir no telhado e nos atirar lá de cima.
Não que eu fizesse tanta questão no momento, mas todas as imagens deste e de meus outros blogs (inclusive o portfólio dos desenhos) sumiram no espaço, sem prévio aviso. O que sobrou foi linkado diretamente de outros sites ou é resquício dos antigos álbuns do hpg, a que não tenho mais acesso para edição (eu reclamava tanto, mas pelo menos eles tiveram a gentileza de não apagar meu passado --> update suspiroso: não se pode elogiar... Tudo bem, mas não me rendo - taí tudo de novo).
Lá fui catar substituições de última hora pra evitar os deprimentes quadros vazios com xizinhos no canto. As cores descombinam, mas tomem como uma estética kitsch de protesto, algo assim. Não vou fazer outro template tão cedo, talvez nunca mais.
(update redundante: tá bom, tá bom, eu não aguentei aquelas cores e mudei as imagens. Até um blog tem que morrer com dignidade, tadinho. Mais tarde refaço o portfólio).
Pior foi pra quem perdeu o blog inteiro de repente. Ou pra nós leitores, que perdemos excelentes blogs de repente.
Mas são as regras. Quer gratuidade? Esteja preparado para as surpresas.
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Já reparou? É o fim da democracia representativa.
Não há mais intermediários: o Traficante se candidata ele mesmo, o Banqueiro, o Pastor, a Funkeira, o Contrabandista, o Povo, o Diabo. Não há mais perigo de traição dos políticos-representantes-de-interesses que mudam de lado depois de eleitos e abandonam seus financiadores de campanhas.
Os Novos Políticos não prometem, suas figuras, currículos ou sobrenomes explicitam o que desejam fazer lá. Os eleitores não podem mais se queixar de ter sido enganados.
by Brant Parker
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da série me larga, eu quero saltar:
1- Vista assim do alto mais parece o céu no chão.
Abrem a porta às quinze pras seis:
- Pessoal, a polícia tá subindo o morro, ninguém sai agora.
Sair, tá louco? E perder o espetáculo das balas traçantes?
*
2- Depois de trabalhar toda a semana, meu sábado não vou desperdiçar.
- Qualé, cara, foi você que avançou o sinal!
- POLIÇA FEDERAAAAAL!!! (Tira do bolso e brande no ar os documentos, mas não mostra). E se eu não estivesse com minha namorada aqui, te enchia de tiro nos cornos!!!
*
Sorte nossa de vivermos os dias atuais, de progresso tecnológico e evolução do saber.
O avanço científico da Humanidade possibilitou a troca de fatores aleatórios por um ambiente controlado para a generalização e a aceleração do processo de extinção da vida, inteligente ou nem tanto, sobre a Terra.
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(da Telescópica)
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Não mexe comigo.
Eu conheço a técnica dos cinco pontos para explodir o coração.
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Interrompemos as férias (não minhas, do blog) para dar vazão a esta imensa perplexidade (inexplicável, já que nenhuma surpresa seria possível no contexto) com o rumo das coisas.
As coisas estão irremediavelmente perdidas por aqui. Eu moro na Colômbia. A gente não queria o povo no poder? Pois o povo, esta entidade com fins lucrativos, é assim como o formaram tantos anos seguidos de falta de educação e excesso de tv: preconceituoso, ultraconservador, fanático, comprável (bem baratinho), impressionável, obediente (servil) aos que lhe parecem "importantes" ou célebres (não necessariamente poderosos), corrupto (já dizia Hélio Luz em depoimento no documentário Notícias de uma Guerra Particular, de João Moreira Salles e Kátia Lund: mas esta sociedade está preparada para uma polícia sem corrupção? que não dê jeitinho quando os desvios da lei forem os seus?), que admira e segue ídolos espertos (porque inescrupulosos) mas não aceita a liberdade de escolha do vizinho sobre o modo de levar a própria vida, mesmo que não perturbe ninguém.
Tá tudo dominado: de um lado o Poder armado, que pode ser o do morro, o da puliça, o dos meninos de rua ou o das gangues de pitboys; do outro lado o fanatismo religioso controlador do que nos faz mal ou bem, imune a argumentos e outras frescuras da racionalidade (quem está contra mim está contra Deus e ponto final).
Nenhuma novidade, por que tanto espanto?
Porque eu sempre disse que "apesar de tudo" nunca deixaria o meu país, o Rio de Janeiro, os arredores do meu bairro. Mas este "tudo" já está ultrapassando os limites da minha ampla tolerância, e não tenho idéia de pra onde poderia ir, eu sei que o mundo é todo cruel, mas eu quero ir, minha gente, eu não sou mais daqui.
(update arrependido: passada a tempestade, daqui não saio, daqui ninguém me tira. Ou talvez tirem. Ou talvez saia. Sei lá. Mas ainda não. Hoje fez um dia lindo.)
terça-feira, 5 de outubro de 2004
terça-feira, 7 de setembro de 2004
histórias de surfistas
naquelas ameaças uma última chance: se você sentisse minha falta eu não iria embora, me pede pra ficar. se você dissesse qualquer coisa, se ao menos falasse comigo, ou olhasse daquele jeito, se fizesse um gesto na minha direção, qualquer coisa mínima que eu pudesse interpretar como interesse, se quisesse saber por que estou morrendo. me pede pra viver.
mas ninguém pede, mesmo querendo, e o cara entrou no mar, só entrou, entrou, e foi morar lá dentro livre de todas as dúvidas.
aqui deitada na areia o céu lá embaixo, lá embaixo, no fim do abismo, eu nunca saltei da pedra antes, não sei o que faria se uma onda se levantasse do céu como uma boca de tubarão, se estivesse sem prancha como estou agora, eu não me sinto muito bem nas alturas, eu sempre sonho com a onda gigante que arrasa a cidade e derruba os prédios e só me salvo porque estou por cima da crista como num cavalo, eu tenho pouco fôlego e já quase me afoguei mas disse que foi um desmaio, na verdade eu tenho medo do mar e da solidão que é ter que lutar pela vida fora da minha prancha.
se não fosse isto, esta transparência, a rede de elos de sol sobre meus pés no fundo, este gosto de limpeza (sabe, eu bebo um gole d'água do mar desde pequena no fim de cada mergulho, pra me purificar por dentro) e as bolhas brilhando com a luz da superfície, se não fosse isto ainda assim eu voltava todo dia só pra ver as manobras, as gaivotas flechando certinho seus alvos no meio das pranchas, será que nunca ninguém foi atingido na cabeça?
eu voltava pra ver como ele cresce todo dia e fica maior ali, meu filho que nasceu tão longe do mar e das habilidades motoras, que só aprendeu a andar aos três anos porque encontrou seu elemento, areia, sal, prancha e gaivotas.
ele não morre. atravessei o oceano e o que vejo do alto do Montjuïc? o mar, ele lá do outro lado sobre a pedra do Arpoador me desejando um feliz natal.
o que vejo onde quer que vá? o mar, senão ao vivo pelo menos em imagens, e ele deslizando sobre alguma onda, mesmo imperfeita, antes do café da manhã. aliás ele nem tomava café, tomava suco de tangerina ou abacaxi com cenoura.
levo sempre uma onda na frente dos olhos assim levemente translúcida, às vezes verde, às vezes turquesa, às vezes cinza chumbo. faz algum tempo que não volto ao Arpoador. ele morreu atropelado, atravessando o trânsito da Vieira Souto como se estivesse desviando de peixes.
naquelas ameaças uma última chance: se você sentisse minha falta eu não iria embora, me pede pra ficar. se você dissesse qualquer coisa, se ao menos falasse comigo, ou olhasse daquele jeito, se fizesse um gesto na minha direção, qualquer coisa mínima que eu pudesse interpretar como interesse, se quisesse saber por que estou morrendo. me pede pra viver.
mas ninguém pede, mesmo querendo, e o cara entrou no mar, só entrou, entrou, e foi morar lá dentro livre de todas as dúvidas.
aqui deitada na areia o céu lá embaixo, lá embaixo, no fim do abismo, eu nunca saltei da pedra antes, não sei o que faria se uma onda se levantasse do céu como uma boca de tubarão, se estivesse sem prancha como estou agora, eu não me sinto muito bem nas alturas, eu sempre sonho com a onda gigante que arrasa a cidade e derruba os prédios e só me salvo porque estou por cima da crista como num cavalo, eu tenho pouco fôlego e já quase me afoguei mas disse que foi um desmaio, na verdade eu tenho medo do mar e da solidão que é ter que lutar pela vida fora da minha prancha.
se não fosse isto, esta transparência, a rede de elos de sol sobre meus pés no fundo, este gosto de limpeza (sabe, eu bebo um gole d'água do mar desde pequena no fim de cada mergulho, pra me purificar por dentro) e as bolhas brilhando com a luz da superfície, se não fosse isto ainda assim eu voltava todo dia só pra ver as manobras, as gaivotas flechando certinho seus alvos no meio das pranchas, será que nunca ninguém foi atingido na cabeça?
eu voltava pra ver como ele cresce todo dia e fica maior ali, meu filho que nasceu tão longe do mar e das habilidades motoras, que só aprendeu a andar aos três anos porque encontrou seu elemento, areia, sal, prancha e gaivotas.
ele não morre. atravessei o oceano e o que vejo do alto do Montjuïc? o mar, ele lá do outro lado sobre a pedra do Arpoador me desejando um feliz natal.
o que vejo onde quer que vá? o mar, senão ao vivo pelo menos em imagens, e ele deslizando sobre alguma onda, mesmo imperfeita, antes do café da manhã. aliás ele nem tomava café, tomava suco de tangerina ou abacaxi com cenoura.
levo sempre uma onda na frente dos olhos assim levemente translúcida, às vezes verde, às vezes turquesa, às vezes cinza chumbo. faz algum tempo que não volto ao Arpoador. ele morreu atropelado, atravessando o trânsito da Vieira Souto como se estivesse desviando de peixes.
domingo, 5 de setembro de 2004
Gastaré toda mi vida, y más, y más, y más
Acordei com os helicópteros na minha janela. Pensei que ainda estava na ilha, mas era a polícia carioca.
Tiros antes, foguetório de aviso, tiros depois. Bagdá? Palestina? Rússia? Nããã, era apenas a nossa
Zona Sul, campo de batalha
A Polícia Militar fez uma grande operação na madrugada de ontem nos morros do Pavão-Pavãozinho, em Copacabana, e do Cantagalo, em Ipanema, para impedir uma nova guerra do tráfico na Zona Sul. Tiros de balas traçantes iluminaram o céu. A explosão de granadas assustou os moradores dos bairros. O confronto entre policiais e traficantes começou por volta das 4h e só terminou às 7h. Pela manhã, os sinais da guerra estavam em paredes de prédios e em árvores atingidas por tiros em Ipanema.
Com a troca de tiros as ruas Teixeira de Melo, Nascimento Silva, Barão da Torre, um trecho da Visconde de Pirajá, em Ipanema, e o Túnel Martim Sá, que liga a Barata Ribeiro à Rua Raul Pompéia, em Copacabana, foram fechados pela polícia para evitar que inocentes fossem feridos por balas perdidas. Trechos de algumas dessas ruas já têm redução do valor do IPTU porque são consideradas áreas de risco. Uma creche e a Escola Municipal José Linhares não funcionaram. Pais que tentaram levar os filhos para a escola no início da manhã tiveram que voltar para casa. Um traficante foi preso e uma bazuca foi apreendida no Morro do Cantagalo.
Isso foi de quinta pra sexta. De manhã eu fui trabalhar de porre sem ter bebido, levei um tombo na ladeira e voltei pra casa antes que a batalha das sextas começasse no morro da área, ou no meio do caminho fechando outros túneis, ou levantando barreiras no meu próprio quarteirão.
É assim que a gente anda vivendo por aqui.
Que tal virar hippie nesta altura da vida? Lembra daquelas propostas de dispensar a sociedade de consumo, os bancos, o dinheiro, a burocracia, os controles do Grande Irmão, e viver de brisa, sombra, rede, água de côco e legumes da própria horta, chá de artemísia, sei lá, comer insetos que caem na sopa e mel de abelha com banana amassada e granola? Andar à pé ou de bicicleta, fazer a própria roupa, fazer um sonzinho coletivo em volta da fogueira e fazer filhos e filhos e muitos filhos batizados com nomes impronunciáveis ou naturebais, e levitar na fumaça até alcançar mundos inescrutáveis e inspiradores da paz entre os povos?
Pois é, isto nunca me atraiu.
Mas confesso que nessas horas de tiroteio sob a janela ardo de desejo de voltar pra ilha e viver a vida cantando, hi Lili hi Lili hi lo. Por isso sempre contente estou, o que passou, passou. O mundo gira depressa e nessas voltas eu vou.
Voltas pra dentro, como uma espiral que se fecha cada vez mais rumo ao próprio umbigo.
No entanto acredite, eu adoro viver nesta cidade apesar do que tem de ruim, porque o que tem de bom eu não encontro nos outros lugares. Já fui e já voltei e sempre voltarei.
Mas desde aquela madrugada o nunca más podré dormir, nunca más podré soñar, ganhou outro sentido, um pouco mais assustador.
(04/09/04)
*
eu adiei, adiei, adiei, resisti, mas finalmente vi o Brilho Eterno de uma Mente sem Lembranças.
o que posso dizer?
que o filme é mesmo muito bom, e que somos muitos os usuários dos serviços daquela empresa.
*
sai Luke Skywalker, entra a Princesa Leia.
viralata, 4 meses, aparentemente da espécie canina, provável descendente de lobos + gatos + cabritos e sorridente.
sim, ela sorri, incrédulos. com boca, olhos, focinho e orelhas.
mas finge que despreza câmeras e costuma posar entediada, no máximo um sorriso irônico de monalisa.
*
nossa modesta contribuição à difusão do pânico planetário:
VIROLOGIA
Criando um monstro
A gripe das aves surgida na Ásia trouxe o medo de uma epidemia capaz de matar milhões de pessoas no mundo. Mas para descobrir se o vírus das aves é mesmo tão perigoso precisa-se cruzá-lo com vírus de gripe que afetam seres humanos. É uma jogada arriscada e cientistas reconhecem que podem criar um monstro, caso um vírus misto escape. Tais experiências estão em curso em EUA e países asiáticos. Porém, não há garantias reais de segurança.
ainda bem que avisaram, obrigada.
*
pelas campinas gentis
voam lindas braboletas
com suas asas sutis
verdes, vermelhas e pretas
ah quem me dera avoar
como tão lindos bichinhos
só para as rosas beijar
sem me espetar nos espinhos
*
Brian Wilson vem aí, tararararara.
*
adivinha onde eu estou. siiiiim, acertou! ou não.
*
é longe, muito longe daí.
*
estou recolhida aos meus domínios, junto aos meus amores e produzindo ações de alcance limitado.
não que eu ache que este mundo aí não presta pra mim, entende? (aliás não tenho a menor paciência pra discursos tipo "todos são irracionais, imbecis, mesquinhos, ignorantes, medíocres, menos eu", vindos de maiores de 18 anos).
mas talvez eu AINDA não esteja preparada psicologicamente para usufruir da diversidade do mundo-cão contemporâneo cosmopolita tão estimulante, e prefira interagir com a micro-sociedade dos arredores, algo assim.
micro is beautiful.
posso confessar uma coisa? eu me sinto bem. eu ando pelas ruas e me sinto dona do pedaço, embora não seja. eu circulo nos lugares que me interessam e não sinto medo nem constrangimento nem estranhamento, eu sou dona dos pedaços onde minha vida evolui. Mas não faço questão de me meter onde não é a minha área, entende? (não precisa, estou falando por falar, sei que você não tem nada com isso.)
*
acho que entendi o lance da tolerância com o diferente, embora prefira cada vez mais conviver com os iguais.
*
não que eu goste de "todo mundo", o que seria hipócrita, nem que suporte "tudo" com estoicismo grego, masoquismo judaico-cristão ou a indiferença dos lesados, mas acho que encontrei o ponto da convivência tranqüila, o não-esquentar por pouco.
*
por que estaria discorrendo sobre esses assuntos no blog? sei lá.
nem sei por que ainda tenho blog.
*
acho que é pra ter onde despejar o que esqueci de dizer nas conversas de domingo à tarde.
*
aos domingos eu falo muito.
*
mas por que você ainda lê isto aqui? não entendo.
*
temos um apego irracional aos hábitos do passado, e uma tentativa de desapego igualmente irracional, forçada e frustrante, mas não podemos apagar o que fomos.
*
acho que algumas pessoas que passam por nossas vidas são indeléveis como aquelas tintas, ou resistentes como alguns filtros solares que não saem na água.
mas outras são esquecíveis, ou precisam ser esquecidas. aí tudo bem.
eu me esqueço, mas sinto um certo prazer em saber que os arquivos estão todos guardados ali na gavetinha.
*
sabe por quê falo disso, não é? por causa do filme, claro.
não pude deixar de lembrar dum tempo difícil de luta contra minha metade rebelde, que só queria provar que podia vencer os argumentos racionais pela teimosia e impulsividade adolescente.
agora eu acho aquilo tudo tão fácil de entender.
tão distante e tão claro.
mas quando lembro ainda me comovo um pouco, como quando conto uma história da infância, das mágoas que só se tornaram explicáveis - e perdoáveis - com o passar do tempo.
*
esquecer não é uma vitória.
vitória é lembrar com calma e não se importar mais.
*
tenho uma necessidade de recuperação do que foi mal digerido na minha vida, uma certa boa-vontade com os fatos negativos um pouco condescendente, reconheço, mas é pra consumo próprio.
não preciso nem de manifestações de reconciliação do outro lado, eu mesma me reconcilio com minhas memórias problemáticas e fico em paz com a ilusão de não ter inimigos nem adversários hostis em qualquer área da existência.
acho que isto é produto de uma auto-suficiência nada elogiável, mas quoi faire? é assim que eu me defendo das decepções e reveses desta vida cheia de som e fúria.
*
é, querido diário, assim são os domingos em Manoku do Oeste: auto-descobertas independentes de terapeutas (aqui só tem feiticeiros e gurus) e busca incansável dos atalhos para a Felicidade.
Acordei com os helicópteros na minha janela. Pensei que ainda estava na ilha, mas era a polícia carioca.
Tiros antes, foguetório de aviso, tiros depois. Bagdá? Palestina? Rússia? Nããã, era apenas a nossa
Zona Sul, campo de batalha
A Polícia Militar fez uma grande operação na madrugada de ontem nos morros do Pavão-Pavãozinho, em Copacabana, e do Cantagalo, em Ipanema, para impedir uma nova guerra do tráfico na Zona Sul. Tiros de balas traçantes iluminaram o céu. A explosão de granadas assustou os moradores dos bairros. O confronto entre policiais e traficantes começou por volta das 4h e só terminou às 7h. Pela manhã, os sinais da guerra estavam em paredes de prédios e em árvores atingidas por tiros em Ipanema.
Com a troca de tiros as ruas Teixeira de Melo, Nascimento Silva, Barão da Torre, um trecho da Visconde de Pirajá, em Ipanema, e o Túnel Martim Sá, que liga a Barata Ribeiro à Rua Raul Pompéia, em Copacabana, foram fechados pela polícia para evitar que inocentes fossem feridos por balas perdidas. Trechos de algumas dessas ruas já têm redução do valor do IPTU porque são consideradas áreas de risco. Uma creche e a Escola Municipal José Linhares não funcionaram. Pais que tentaram levar os filhos para a escola no início da manhã tiveram que voltar para casa. Um traficante foi preso e uma bazuca foi apreendida no Morro do Cantagalo.
Isso foi de quinta pra sexta. De manhã eu fui trabalhar de porre sem ter bebido, levei um tombo na ladeira e voltei pra casa antes que a batalha das sextas começasse no morro da área, ou no meio do caminho fechando outros túneis, ou levantando barreiras no meu próprio quarteirão.
É assim que a gente anda vivendo por aqui.
Que tal virar hippie nesta altura da vida? Lembra daquelas propostas de dispensar a sociedade de consumo, os bancos, o dinheiro, a burocracia, os controles do Grande Irmão, e viver de brisa, sombra, rede, água de côco e legumes da própria horta, chá de artemísia, sei lá, comer insetos que caem na sopa e mel de abelha com banana amassada e granola? Andar à pé ou de bicicleta, fazer a própria roupa, fazer um sonzinho coletivo em volta da fogueira e fazer filhos e filhos e muitos filhos batizados com nomes impronunciáveis ou naturebais, e levitar na fumaça até alcançar mundos inescrutáveis e inspiradores da paz entre os povos?
Pois é, isto nunca me atraiu.
Mas confesso que nessas horas de tiroteio sob a janela ardo de desejo de voltar pra ilha e viver a vida cantando, hi Lili hi Lili hi lo. Por isso sempre contente estou, o que passou, passou. O mundo gira depressa e nessas voltas eu vou.
Voltas pra dentro, como uma espiral que se fecha cada vez mais rumo ao próprio umbigo.
No entanto acredite, eu adoro viver nesta cidade apesar do que tem de ruim, porque o que tem de bom eu não encontro nos outros lugares. Já fui e já voltei e sempre voltarei.
Mas desde aquela madrugada o nunca más podré dormir, nunca más podré soñar, ganhou outro sentido, um pouco mais assustador.
(04/09/04)
*
eu adiei, adiei, adiei, resisti, mas finalmente vi o Brilho Eterno de uma Mente sem Lembranças.
o que posso dizer?
que o filme é mesmo muito bom, e que somos muitos os usuários dos serviços daquela empresa.
*
sai Luke Skywalker, entra a Princesa Leia.
viralata, 4 meses, aparentemente da espécie canina, provável descendente de lobos + gatos + cabritos e sorridente.
sim, ela sorri, incrédulos. com boca, olhos, focinho e orelhas.
mas finge que despreza câmeras e costuma posar entediada, no máximo um sorriso irônico de monalisa.
*
nossa modesta contribuição à difusão do pânico planetário:
VIROLOGIA
Criando um monstro
A gripe das aves surgida na Ásia trouxe o medo de uma epidemia capaz de matar milhões de pessoas no mundo. Mas para descobrir se o vírus das aves é mesmo tão perigoso precisa-se cruzá-lo com vírus de gripe que afetam seres humanos. É uma jogada arriscada e cientistas reconhecem que podem criar um monstro, caso um vírus misto escape. Tais experiências estão em curso em EUA e países asiáticos. Porém, não há garantias reais de segurança.
ainda bem que avisaram, obrigada.
*
pelas campinas gentis
voam lindas braboletas
com suas asas sutis
verdes, vermelhas e pretas
ah quem me dera avoar
como tão lindos bichinhos
só para as rosas beijar
sem me espetar nos espinhos
*
Brian Wilson vem aí, tararararara.
*
adivinha onde eu estou. siiiiim, acertou! ou não.
*
é longe, muito longe daí.
*
estou recolhida aos meus domínios, junto aos meus amores e produzindo ações de alcance limitado.
não que eu ache que este mundo aí não presta pra mim, entende? (aliás não tenho a menor paciência pra discursos tipo "todos são irracionais, imbecis, mesquinhos, ignorantes, medíocres, menos eu", vindos de maiores de 18 anos).
mas talvez eu AINDA não esteja preparada psicologicamente para usufruir da diversidade do mundo-cão contemporâneo cosmopolita tão estimulante, e prefira interagir com a micro-sociedade dos arredores, algo assim.
micro is beautiful.
posso confessar uma coisa? eu me sinto bem. eu ando pelas ruas e me sinto dona do pedaço, embora não seja. eu circulo nos lugares que me interessam e não sinto medo nem constrangimento nem estranhamento, eu sou dona dos pedaços onde minha vida evolui. Mas não faço questão de me meter onde não é a minha área, entende? (não precisa, estou falando por falar, sei que você não tem nada com isso.)
*
acho que entendi o lance da tolerância com o diferente, embora prefira cada vez mais conviver com os iguais.
*
não que eu goste de "todo mundo", o que seria hipócrita, nem que suporte "tudo" com estoicismo grego, masoquismo judaico-cristão ou a indiferença dos lesados, mas acho que encontrei o ponto da convivência tranqüila, o não-esquentar por pouco.
*
por que estaria discorrendo sobre esses assuntos no blog? sei lá.
nem sei por que ainda tenho blog.
*
acho que é pra ter onde despejar o que esqueci de dizer nas conversas de domingo à tarde.
*
aos domingos eu falo muito.
*
mas por que você ainda lê isto aqui? não entendo.
*
temos um apego irracional aos hábitos do passado, e uma tentativa de desapego igualmente irracional, forçada e frustrante, mas não podemos apagar o que fomos.
*
acho que algumas pessoas que passam por nossas vidas são indeléveis como aquelas tintas, ou resistentes como alguns filtros solares que não saem na água.
mas outras são esquecíveis, ou precisam ser esquecidas. aí tudo bem.
eu me esqueço, mas sinto um certo prazer em saber que os arquivos estão todos guardados ali na gavetinha.
*
sabe por quê falo disso, não é? por causa do filme, claro.
não pude deixar de lembrar dum tempo difícil de luta contra minha metade rebelde, que só queria provar que podia vencer os argumentos racionais pela teimosia e impulsividade adolescente.
agora eu acho aquilo tudo tão fácil de entender.
tão distante e tão claro.
mas quando lembro ainda me comovo um pouco, como quando conto uma história da infância, das mágoas que só se tornaram explicáveis - e perdoáveis - com o passar do tempo.
*
esquecer não é uma vitória.
vitória é lembrar com calma e não se importar mais.
*
tenho uma necessidade de recuperação do que foi mal digerido na minha vida, uma certa boa-vontade com os fatos negativos um pouco condescendente, reconheço, mas é pra consumo próprio.
não preciso nem de manifestações de reconciliação do outro lado, eu mesma me reconcilio com minhas memórias problemáticas e fico em paz com a ilusão de não ter inimigos nem adversários hostis em qualquer área da existência.
acho que isto é produto de uma auto-suficiência nada elogiável, mas quoi faire? é assim que eu me defendo das decepções e reveses desta vida cheia de som e fúria.
*
é, querido diário, assim são os domingos em Manoku do Oeste: auto-descobertas independentes de terapeutas (aqui só tem feiticeiros e gurus) e busca incansável dos atalhos para a Felicidade.
domingo, 29 de agosto de 2004
Assistindo ao documentário Promises (Promessas de um novo mundo), aquele sobre crianças árabes e israelenses da Palestina, eu me dei conta, internamente, de um detalhe discutido mil vezes na teoria mas nunca dantes realmente absorvido:
só os privilegiados podem ser bonzinhos impunemente.
Bonzinhos, digo: justos nas intenções, quase isentos, quase imparciais ao julgar desigualdades de direitos, desigualdades de acesso aos bens indispensáveis à vida e essas coisas todas.
E eu disse que podem ser, não que sejam.
Porque só os privilegiados têm acesso livre aos dois lados de todos os muros.
Só eles conhecem o que os outros estão perdendo.
Só eles podem ser condescendentes e renunciar aos privilégios.
Só eles não estão pondo a sobrevivência em risco cada vez que opinam sobre esses assuntos.
Só eles podem falar baixo, ter educação e boas maneiras, expor argumentos racionalmente e ser ouvidos por seus pares.
Só eles podem falar de paz, podem querer que tudo se resolva pacificamente, sem traumas.
Basta que cedam em seu poder, que abandonem seus privilégios e entreguem a parte que não lhes caberia por justiça. Tão fácil.
Também falo de nós, da classe média, e não só dos absurdamente privilegiados.
Falo de quem tem algum acesso a algum poder para resolver algum problema sem precisar de tocar o terror.
Quando a gente trabalha numa área carente de atenção, para um público carente de poder, a tentação está em tentar ser um(a) igual, disfarçar as diferenças aparentes.
Mas não é preciso quebrar barreiras pela identificação - condescendente, forçada - com o modo de vida dessa parcela da população, e sim com seus objetivos.
Porque os excluídos do mundo das decisões não estão precisando de "iguais" de outros mundos.
A consciência política que desemboca em ação transformadora não vem de fora, como a gente pensava na época infantil da militância política.
Vem da necessidade de ultrapassar o bloqueio da expressão, de ultrapassar os guetos e ser aceito e ouvido e atendido sem depender da condescendência e solidariedade pessoal dos "incluídos".
A ação que deriva desta necessidade pode não ser muito consistente ou preocupada com o futuro, pode ser inconseqüente ou ter conseqüências imprevisíveis, como um quebra-quebra de trens que enguiçam, como um bloqueio de estrada próxima a acampamento de sem-terra pra roubar cargas de caminhões, como um funk-brabeira de apologia aos donos do morro, modelos de imposição do "ponto de vista" dos excluídos pelas vias mais convincentes.
Mas eles não precisam de aliados que falem por eles. Precisam de novos patamares de ação, de alcance de voz, de se apropriar de instrumentos pra fazer valer sua voz e, então sim, poderem falar de igual para igual com os poderes todos. Sem precisar de tocar o terror pra ter atenção.
Tudo tão óbvio, tão sabido e discutido desde sempre, por estudiosos dos movimentos populares como Paulo Freire, não é? mas eu ainda não tinha mudado lá por dentro a ilusão de "dar consciência", de "esclarecer" pela educação.
No entanto, o melhor modo de esclarecer não é falar, é deixar falar. É dar, não a "consciência", mas a oportunidade de cultivar a consciência onde ela pode brotar.
Foi assistindo Promises que eu entendi melhor os meus limites, e o alcance da instituição em que trabalho.
*
dias de luz, festa de sol.
*
Estou gostando muito do meu trabalho, a ponto de sonhar ou tentar aperfeiçoar coisas durante a madrugada. Já desisti de me policiar nisto, o envolvimento total faz parte da constituição híldica. Como dizia Roberto Freire, sem tesão não há solução.
Por coincidência, a instituição fica numa região fisicamente carente também, mas o lugar não é tão importante, porque nosso público-alvo não são os nossos vizinhos. (O lugar só é pregnante quando voam balas sem endereço. Aí este se torna o detalhe mais importante das nossas inseguras vidas de população-alvo. Mas isto não é privilégio das áreas da linha 2 do metrô: no outro dia mesmo cheguei em casa, na Princesinha do Mar, e havia uma guerra no meio da rua, túnel fechado e carros da polícia sibilantes passando sobre as calçadas).
*
Meu hóspede canino, que se chama Luke Skywalker, vai embora no domingo que vem.
Talvez. Quem sabe. Se ele quiser e/ou se eu permitir.
*
Adorei minha festa de aniversário, no sábado mais passado. Senti falta de quem não veio, mas fiquei tão feliz com as presenças queridas brilhando os dentes brancos no escuro azulado, jogando totó na cozinha, tomando café da manhã na padaria, reafirmando certezas múltiplas e mútuas, tecendo redes quase visíveis, entendendo o valor do tempo.
*
Não estou voltando ao querido diário. Mas, entende, cada um reata laços com "amiguinhos do primário" como pode, e às vezes dá vontade de contar como vai tudo por aqui.
Olá, amiguinhos do primário recém-conhecidos. Por aqui vai tudo bem, obrigada.
só os privilegiados podem ser bonzinhos impunemente.
Bonzinhos, digo: justos nas intenções, quase isentos, quase imparciais ao julgar desigualdades de direitos, desigualdades de acesso aos bens indispensáveis à vida e essas coisas todas.
E eu disse que podem ser, não que sejam.
Porque só os privilegiados têm acesso livre aos dois lados de todos os muros.
Só eles conhecem o que os outros estão perdendo.
Só eles podem ser condescendentes e renunciar aos privilégios.
Só eles não estão pondo a sobrevivência em risco cada vez que opinam sobre esses assuntos.
Só eles podem falar baixo, ter educação e boas maneiras, expor argumentos racionalmente e ser ouvidos por seus pares.
Só eles podem falar de paz, podem querer que tudo se resolva pacificamente, sem traumas.
Basta que cedam em seu poder, que abandonem seus privilégios e entreguem a parte que não lhes caberia por justiça. Tão fácil.
Também falo de nós, da classe média, e não só dos absurdamente privilegiados.
Falo de quem tem algum acesso a algum poder para resolver algum problema sem precisar de tocar o terror.
Quando a gente trabalha numa área carente de atenção, para um público carente de poder, a tentação está em tentar ser um(a) igual, disfarçar as diferenças aparentes.
Mas não é preciso quebrar barreiras pela identificação - condescendente, forçada - com o modo de vida dessa parcela da população, e sim com seus objetivos.
Porque os excluídos do mundo das decisões não estão precisando de "iguais" de outros mundos.
A consciência política que desemboca em ação transformadora não vem de fora, como a gente pensava na época infantil da militância política.
Vem da necessidade de ultrapassar o bloqueio da expressão, de ultrapassar os guetos e ser aceito e ouvido e atendido sem depender da condescendência e solidariedade pessoal dos "incluídos".
A ação que deriva desta necessidade pode não ser muito consistente ou preocupada com o futuro, pode ser inconseqüente ou ter conseqüências imprevisíveis, como um quebra-quebra de trens que enguiçam, como um bloqueio de estrada próxima a acampamento de sem-terra pra roubar cargas de caminhões, como um funk-brabeira de apologia aos donos do morro, modelos de imposição do "ponto de vista" dos excluídos pelas vias mais convincentes.
Mas eles não precisam de aliados que falem por eles. Precisam de novos patamares de ação, de alcance de voz, de se apropriar de instrumentos pra fazer valer sua voz e, então sim, poderem falar de igual para igual com os poderes todos. Sem precisar de tocar o terror pra ter atenção.
Tudo tão óbvio, tão sabido e discutido desde sempre, por estudiosos dos movimentos populares como Paulo Freire, não é? mas eu ainda não tinha mudado lá por dentro a ilusão de "dar consciência", de "esclarecer" pela educação.
No entanto, o melhor modo de esclarecer não é falar, é deixar falar. É dar, não a "consciência", mas a oportunidade de cultivar a consciência onde ela pode brotar.
Foi assistindo Promises que eu entendi melhor os meus limites, e o alcance da instituição em que trabalho.
*
dias de luz, festa de sol.
*
Estou gostando muito do meu trabalho, a ponto de sonhar ou tentar aperfeiçoar coisas durante a madrugada. Já desisti de me policiar nisto, o envolvimento total faz parte da constituição híldica. Como dizia Roberto Freire, sem tesão não há solução.
Por coincidência, a instituição fica numa região fisicamente carente também, mas o lugar não é tão importante, porque nosso público-alvo não são os nossos vizinhos. (O lugar só é pregnante quando voam balas sem endereço. Aí este se torna o detalhe mais importante das nossas inseguras vidas de população-alvo. Mas isto não é privilégio das áreas da linha 2 do metrô: no outro dia mesmo cheguei em casa, na Princesinha do Mar, e havia uma guerra no meio da rua, túnel fechado e carros da polícia sibilantes passando sobre as calçadas).
*
Meu hóspede canino, que se chama Luke Skywalker, vai embora no domingo que vem.
Talvez. Quem sabe. Se ele quiser e/ou se eu permitir.
*
Adorei minha festa de aniversário, no sábado mais passado. Senti falta de quem não veio, mas fiquei tão feliz com as presenças queridas brilhando os dentes brancos no escuro azulado, jogando totó na cozinha, tomando café da manhã na padaria, reafirmando certezas múltiplas e mútuas, tecendo redes quase visíveis, entendendo o valor do tempo.
*
Não estou voltando ao querido diário. Mas, entende, cada um reata laços com "amiguinhos do primário" como pode, e às vezes dá vontade de contar como vai tudo por aqui.
Olá, amiguinhos do primário recém-conhecidos. Por aqui vai tudo bem, obrigada.
terça-feira, 24 de agosto de 2004
I believe in miracles.
Você acredita que tudo pode ser resolvido assim de repente? Pois aconteceu naquele dia mesmo. Conquistei um futuro possível em 24 horas.
Vou te contar uma historinha: em 15 de dezembro, só pra ter uma data comemorável, um disco voador carregou minha vida pra muito, muito longe daqui, e tive que decidir as coisas de sopetão, da noite pro dia, dia após dia, e podendo mudar tudo nas próximas horas.
Como boa mochileira das galáxias, eu parti. Comandos em ação, percebe? Vida real. O que teve o ano passado de falta teve este de excesso.
O jet-lag entre planetas é mais violento, você sabe. E climas estranhos provocam miragens feéricas, lembrai-vos das auroras boreais e austrais.
Casei e mudei para um castelo de vidro nas estepes antárticas (como em Superman, acho que era o 2), situado ligeiramente acima do chão. Flutuante. Quando esquenta ele derrete um pouco, então chove lá embaixo.
Meses e meses de mãos geladas e coração quente, previsão zero, suspense e suspensão, idas e vindas, ansiedade e surpresas. Eu aprendi a voar, eu aprendi a cavalgar sobre o gelo, eu aprendi a pescar krill com as baleias e os japoneses, eu aprendi a domar tubarões e abomináveis homens das neves, eu aprendi a deletar com fé e a atravessar paisagens transparentes. Voltei a usar meus óculos amarelos.
Agora chega de pairar. Já é tempo de descer em terreno firme.
Não que se deva desistir de living la vida loca nas nuvens, mas entende, hora de abastecer.
Eu trouxe fotos, lembranças de viagem e um leão marinho da Patagônia pra criar na banheira.
Você acredita que tudo pode ser resolvido assim de repente? Pois aconteceu naquele dia mesmo. Conquistei um futuro possível em 24 horas.
Vou te contar uma historinha: em 15 de dezembro, só pra ter uma data comemorável, um disco voador carregou minha vida pra muito, muito longe daqui, e tive que decidir as coisas de sopetão, da noite pro dia, dia após dia, e podendo mudar tudo nas próximas horas.
Como boa mochileira das galáxias, eu parti. Comandos em ação, percebe? Vida real. O que teve o ano passado de falta teve este de excesso.
O jet-lag entre planetas é mais violento, você sabe. E climas estranhos provocam miragens feéricas, lembrai-vos das auroras boreais e austrais.
Casei e mudei para um castelo de vidro nas estepes antárticas (como em Superman, acho que era o 2), situado ligeiramente acima do chão. Flutuante. Quando esquenta ele derrete um pouco, então chove lá embaixo.
Meses e meses de mãos geladas e coração quente, previsão zero, suspense e suspensão, idas e vindas, ansiedade e surpresas. Eu aprendi a voar, eu aprendi a cavalgar sobre o gelo, eu aprendi a pescar krill com as baleias e os japoneses, eu aprendi a domar tubarões e abomináveis homens das neves, eu aprendi a deletar com fé e a atravessar paisagens transparentes. Voltei a usar meus óculos amarelos.
Agora chega de pairar. Já é tempo de descer em terreno firme.
Não que se deva desistir de living la vida loca nas nuvens, mas entende, hora de abastecer.
Eu trouxe fotos, lembranças de viagem e um leão marinho da Patagônia pra criar na banheira.
quarta-feira, 18 de agosto de 2004
droga.
tantas mensagens em coreano no meu correio.
não digo que esteja certa, se estivesse não teria me ferrado sempre que tentasse agir por impulsos inadiáveis, mas por que raios a vida não pode ser mais simples? pra que tanta dificuldade, tanta tensão, tanta curiosidade borboletando lá dentro e nenhum movimento pra desatar o barbante da inércia enrolado nas pernas?
a gente alimenta esperanças com pastéis de vento. depois tem que andar por aí com a esperança gordinha na coleira antes que ela escape e galope entre os carros, antes que ela nos coma num acesso de fúria, pra gastar suas forças. pra não querer, não pensar nem achar nada. pra não perguntar nada a ninguém. pra não comer morcego. pra não produzir mais vento.
mas a droga da vontade de ver como seria se acaso fosse aponta no horizonte o tempo todo e é triste constatar como é fácil desistir dos nossos futuros possíveis.
sei lá, entende? mil coisas complicadas e uma loura querendo entender a tal palavra intraduzível.
tantas mensagens em coreano no meu correio.
não digo que esteja certa, se estivesse não teria me ferrado sempre que tentasse agir por impulsos inadiáveis, mas por que raios a vida não pode ser mais simples? pra que tanta dificuldade, tanta tensão, tanta curiosidade borboletando lá dentro e nenhum movimento pra desatar o barbante da inércia enrolado nas pernas?
a gente alimenta esperanças com pastéis de vento. depois tem que andar por aí com a esperança gordinha na coleira antes que ela escape e galope entre os carros, antes que ela nos coma num acesso de fúria, pra gastar suas forças. pra não querer, não pensar nem achar nada. pra não perguntar nada a ninguém. pra não comer morcego. pra não produzir mais vento.
mas a droga da vontade de ver como seria se acaso fosse aponta no horizonte o tempo todo e é triste constatar como é fácil desistir dos nossos futuros possíveis.
sei lá, entende? mil coisas complicadas e uma loura querendo entender a tal palavra intraduzível.
sábado, 7 de agosto de 2004
Definir margens, diz ali. Cumpra-se. Definirei as margens:
Do lado direito você pode ver o mar, a montanha, o céu, o cenário pintado pro carnaval.
Do lado esquerdo você pode vislumbrar as coxias, as embalagens, a sucata, o lixo, o isopor, os ferros, os arames, os grampos, a armação.
Em cima você pode observar as câmeras que nos observam.
Embaixo você pode adivinhar o mundo que fervilha sob este terreno, os passinhos apressados de formigas que se esbarram pelas trilhas e trombam as cargas com as paredes do túnel; a barriga suja de barro das minhocas; o fluxo nervosinho de tudo o que corre nas veias, nos canos, no avesso, nos fios, nas raízes, nas tumbas, nas galerias úmidas cheias de morcegos góticos do metrô, nos porões do pensamento e do desejo.
cartazes internacionais do melhor filme de David Lynch.
Horror nas almas simples
De acordo com Pereira, reforça-se hoje a confusão, com repercussões no cotidiano, entre os termos "transgressão" e "perversão". A transgressão questiona a realidade, mas a violência perversa apenas perpetua o que já está estabelecido.
(..)
"Uma vertente é a da crueldade como potência para dissolver o que nos aflige, ou seja, a crueldade como princípio desconstrutor. Nesse sentido, ela é a maior aliada na luta contra a crueldade fetichizada do contemporâneo. São duas formas que às vezes se confundem, mas a primeira gera pensamento de fato, uma intensidade, e a outra serve apenas para "épater les bourgeois", insere-se no contexto de banalização" diz Paula.
(Sobre o tema do livro "Estéticas da crueldade", Atlântica Editora, "reunindo artigos de pesquisadores do Rio que discutem as expressões da crueldade - ou as expressões cruéis - na arte e na mídia contemporâneas. São textos que abordam a maneira como a crueldade, esse subproduto da violência, tem se infiltrado nas subjetividades". É organizado por Ângela Maria Dias e Paula Glenadel, professoras de Literatura da UFF.)
guardando proporções devidas, pensei muito sobre isso vendo o Anima Mundi.
o que provoca a reação catártica nas platéias.
o conformismo cruel.
é chocante.
não pelas bigornas, tratores ou armadilhas, o que é parte do código dos desenhos animados, mas pela insistência da crueldade gratuita (sem graça e sem função, já que nem todo roteirista é Matt Groening, Trey Parker ou Matt Stone) como solução para as gags.
o que choca é a pobreza.
nos tempos de reinado Disneyano, fechar as cenas de humor com bebês, velhinhas, amiguinhos ou animais fofos triturados já foi revolucionário.
mas é que tá lembrando muito mais Comichão e Coçadinha do que Tom e Jerry, se é que me entendem.
no entanto, vos digo que aprecio muito tudo isso.
os dias são mais curtos neste hemisfério lunar.
me perdoe a pressa, é a alma dos nossos negócios.
O Paraíso Visto Pelo Retrovisor Do Meu Carro
camaradas, mudei
me mandei do meu corpo morto
do meu modo torto de pensar
hoje, nada passa por mim
sem que eu deixe um amassinho
me saí tão perfeito
que os defeitos restantes
parecem enfeite do meu cérebro mutante
estive até pensando em ter um filho
para que a espécie frutifique e modifique a humanidade
me saí tão perfeito que tornei-me imune à tristeza
ou a qualquer sentimento mesquinho
não mais sonho com princesas de peles ásperas
habitando castelos destruídos
sonhando com o que não existe
fiz apenas isto:
tirei as teias de aranha da cama
a cama do quarto
o quarto do apartamento
o apartamento do nono andar
para que as nuvens possam vagar
sem serem atropeladas
estou morando no campo
numa casa de vidro
onde nada escondo
dos olhos insanos
pois minhas asas são as mãos de Deus
_________________________________
falta uma hora para tornar-me eterno
ou ser esquecido para sempre
(Angelo Rozalen)
no blog do Mário Bortolotto.
eu também tenho algo a dizer mas me foge à lembrança.
encerrando julho
tenho sorte. quando não dá pra escapar da pedrada, acontece levinha, pedra cenográfica de isopor.
tipo sair de acidente de carro com duas manchas roxas na perna.
então, ao catar suas bolsas teoricamente guardadas no quarto, pra deixar a festa, umas dez pessoas descobrem que foram roubadas. eu também. alguém resolve procurar na rua e começa a encontrar carteirinhas de assinante, de usuário, de membro, de identidade, cpfs e escovas de cabelo pelo chão. e minha bolsa cheia das minhas coisas e de coisas alheias. tudo lá. ou quase, o ladrão só quis 5 reau (dado que os valores minimamente cobiçáveis que cabem em bolsas ficaram dormindo em casa, recarregando baterias).
por isso venho aqui agradecer de público às forças transcendentais mancomunadas, que mais uma vez me livraram de um sufoco, como ter de refazer todos os documentos. obrigada, valeu mesmo.
(ah, e fez frio, eu pude usar meu casaco peludinho).
eu voltei.
lembrei que também tenho asas e voltei, aqui é o meu lugar.
(mas lá também é, e todo o espaço existente, um horizonte em expansão é a logomarca dos viajantes).
la donna è mobile.
quase aprendi a pilotar helicóptero, mas ainda tento pousar na copa das árvores.
vim rever meu quintal.
mas sempre que a sombra do pássaro sobrevoante passar por minha janela eu retorno pro meu aconchego no meio do nada.
as aves que aqui gorgeiam não gorgeiam como lá.
aquela ilha, isla, insula, isola, é tudo o que tenho de privado no mundo, o resto é um blog aberto.
(que às vezes fecha. definitivamente, por uma semana).
mas nada disso me importa mais. não quero explicar. não quero tomar cuidado. não quero me conhecer melhor. não quero te conhecer. não quero mudar de vida. não quero cristalizar nesta vida. tá tudo bem, a não ser quando vai mal. quero continuar transbordando. às vezes isso enche. às vezes não sobra nada. às vezes eu esqueço. às vezes eu esquento.
meu aniversário tá chegando.
inferno astral é a vontade de ter tudo ao mesmo tempo agora e já.
Do lado direito você pode ver o mar, a montanha, o céu, o cenário pintado pro carnaval.
Do lado esquerdo você pode vislumbrar as coxias, as embalagens, a sucata, o lixo, o isopor, os ferros, os arames, os grampos, a armação.
Em cima você pode observar as câmeras que nos observam.
Embaixo você pode adivinhar o mundo que fervilha sob este terreno, os passinhos apressados de formigas que se esbarram pelas trilhas e trombam as cargas com as paredes do túnel; a barriga suja de barro das minhocas; o fluxo nervosinho de tudo o que corre nas veias, nos canos, no avesso, nos fios, nas raízes, nas tumbas, nas galerias úmidas cheias de morcegos góticos do metrô, nos porões do pensamento e do desejo.
cartazes internacionais do melhor filme de David Lynch.
Horror nas almas simples
De acordo com Pereira, reforça-se hoje a confusão, com repercussões no cotidiano, entre os termos "transgressão" e "perversão". A transgressão questiona a realidade, mas a violência perversa apenas perpetua o que já está estabelecido.
(..)
"Uma vertente é a da crueldade como potência para dissolver o que nos aflige, ou seja, a crueldade como princípio desconstrutor. Nesse sentido, ela é a maior aliada na luta contra a crueldade fetichizada do contemporâneo. São duas formas que às vezes se confundem, mas a primeira gera pensamento de fato, uma intensidade, e a outra serve apenas para "épater les bourgeois", insere-se no contexto de banalização" diz Paula.
(Sobre o tema do livro "Estéticas da crueldade", Atlântica Editora, "reunindo artigos de pesquisadores do Rio que discutem as expressões da crueldade - ou as expressões cruéis - na arte e na mídia contemporâneas. São textos que abordam a maneira como a crueldade, esse subproduto da violência, tem se infiltrado nas subjetividades". É organizado por Ângela Maria Dias e Paula Glenadel, professoras de Literatura da UFF.)
guardando proporções devidas, pensei muito sobre isso vendo o Anima Mundi.
o que provoca a reação catártica nas platéias.
o conformismo cruel.
é chocante.
não pelas bigornas, tratores ou armadilhas, o que é parte do código dos desenhos animados, mas pela insistência da crueldade gratuita (sem graça e sem função, já que nem todo roteirista é Matt Groening, Trey Parker ou Matt Stone) como solução para as gags.
o que choca é a pobreza.
nos tempos de reinado Disneyano, fechar as cenas de humor com bebês, velhinhas, amiguinhos ou animais fofos triturados já foi revolucionário.
mas é que tá lembrando muito mais Comichão e Coçadinha do que Tom e Jerry, se é que me entendem.
no entanto, vos digo que aprecio muito tudo isso.
os dias são mais curtos neste hemisfério lunar.
me perdoe a pressa, é a alma dos nossos negócios.
O Paraíso Visto Pelo Retrovisor Do Meu Carro
camaradas, mudei
me mandei do meu corpo morto
do meu modo torto de pensar
hoje, nada passa por mim
sem que eu deixe um amassinho
me saí tão perfeito
que os defeitos restantes
parecem enfeite do meu cérebro mutante
estive até pensando em ter um filho
para que a espécie frutifique e modifique a humanidade
me saí tão perfeito que tornei-me imune à tristeza
ou a qualquer sentimento mesquinho
não mais sonho com princesas de peles ásperas
habitando castelos destruídos
sonhando com o que não existe
fiz apenas isto:
tirei as teias de aranha da cama
a cama do quarto
o quarto do apartamento
o apartamento do nono andar
para que as nuvens possam vagar
sem serem atropeladas
estou morando no campo
numa casa de vidro
onde nada escondo
dos olhos insanos
pois minhas asas são as mãos de Deus
_________________________________
falta uma hora para tornar-me eterno
ou ser esquecido para sempre
(Angelo Rozalen)
no blog do Mário Bortolotto.
eu também tenho algo a dizer mas me foge à lembrança.
encerrando julho
tenho sorte. quando não dá pra escapar da pedrada, acontece levinha, pedra cenográfica de isopor.
tipo sair de acidente de carro com duas manchas roxas na perna.
então, ao catar suas bolsas teoricamente guardadas no quarto, pra deixar a festa, umas dez pessoas descobrem que foram roubadas. eu também. alguém resolve procurar na rua e começa a encontrar carteirinhas de assinante, de usuário, de membro, de identidade, cpfs e escovas de cabelo pelo chão. e minha bolsa cheia das minhas coisas e de coisas alheias. tudo lá. ou quase, o ladrão só quis 5 reau (dado que os valores minimamente cobiçáveis que cabem em bolsas ficaram dormindo em casa, recarregando baterias).
por isso venho aqui agradecer de público às forças transcendentais mancomunadas, que mais uma vez me livraram de um sufoco, como ter de refazer todos os documentos. obrigada, valeu mesmo.
(ah, e fez frio, eu pude usar meu casaco peludinho).
eu voltei.
lembrei que também tenho asas e voltei, aqui é o meu lugar.
(mas lá também é, e todo o espaço existente, um horizonte em expansão é a logomarca dos viajantes).
la donna è mobile.
quase aprendi a pilotar helicóptero, mas ainda tento pousar na copa das árvores.
vim rever meu quintal.
mas sempre que a sombra do pássaro sobrevoante passar por minha janela eu retorno pro meu aconchego no meio do nada.
as aves que aqui gorgeiam não gorgeiam como lá.
aquela ilha, isla, insula, isola, é tudo o que tenho de privado no mundo, o resto é um blog aberto.
(que às vezes fecha. definitivamente, por uma semana).
mas nada disso me importa mais. não quero explicar. não quero tomar cuidado. não quero me conhecer melhor. não quero te conhecer. não quero mudar de vida. não quero cristalizar nesta vida. tá tudo bem, a não ser quando vai mal. quero continuar transbordando. às vezes isso enche. às vezes não sobra nada. às vezes eu esqueço. às vezes eu esquento.
meu aniversário tá chegando.
inferno astral é a vontade de ter tudo ao mesmo tempo agora e já.
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