quinta-feira, 27 de maio de 2004

MUMMENSCHANZ  MUMMENSCHANZ
caramba, nada se parece com isto aqui.
a gente paga pela distração. fiz uma incursão indevida à Tok Stok, aquele Templo do Consumo do mal que só tem o que eu gosto, tão simplesinho e caro, caro, caríssimamente inadquirível, quanto mais simples e despojado (e mal-acabado, e de curta duração), mais assinado e caro, o horror, e eu quero apenas TUDO o que tem lá dentro mas no momento há outras necessidades muito mais prioritárias na fila, se me entendem.
caso clássico de salivação incontida, cobiça e olho grande, tivesse eu agora um desejo gravídico e meu improvável filho nasceria no mínimo com cara de pufe-cubo laranja de 99 reais.

segunda-feira, 24 de maio de 2004

sabe quando a gente atravessa uma espécie de fronteira interna, e fica olhando de longe, muito satisfeita de ter deixado o que ficou pra trás?
é o reconhecimento de alguma mudança demorada, trabalhada, esperada, bem acabada.
mas lá pra frente, sei lá. melhor não cutucar muito pra não acordar antes da hora.

domingo, 23 de maio de 2004

i see dead people, que voltas o mundo dá.
eis que por motivos práticos somos novamente um grupo (ou pelo menos frequentamos os mesmos álbuns de fotografias).
a gente devia sempre prestar muita atenção no que é importante na nossa vida, não é? a importância pode vir de tanta coisa, detalhes tão pequenos.
ah bruta flor do querer, ah bruta flor bruta flor
partida
pronto
pranto preto
pétreo presente
prático pórtico
petrópolis
patrício patrimônio
prato partido
prostrada prata
patada
pútrida protuberância

(que mané poesia concreta, é o som, apenas o som).
metapostagem do dia:
acho que você nunca notou. mas entre as manias que eu tenho, há esta de esconder ovinhos de páscoa por aqui sem avisar.
e eu que já me diverti fazendo links e textos invisíveis, de vez em quando boto uns links póstumos em posts antigos (como neste aqui, onde taquei progressivamente um monte de buracos-de-verme nos emoticons, já faz um tempinho). mas leitores de blog tinham que ser muito curiosos mesmo pra procurar trecos assim no escuro e encontrar por acaso numa visita a mais.
ou tinham que ter manias semelhantes, sei lá.
depois que eu soube de várias fontes seguras que nem tinham reparado em tanta sutileza, recuperei alguns links mais ostensivamente, como os de hoje. mas nem tudo é pra ser repetido, deixa lá.
então é isto, só estou comunicando pras mentes curiosas-mesmo que os posts continuam vivos (e podem ser, inclusive, refeitos ou deletados, ou abandonados pra sempre sem correções quando muito precisavam delas, porque não faço cerimônia neste espaço) enquanto não caírem no Grande Saco dos arquivos.
só pro caso de você se interessar por surpresinhas bobas (mas agora não tem nenhuma não, tou com uma preguiiiiiiiça).
enquanto mochileira das galáxias sem guia de viagem nem sequer 30 dólares altairenses pra começar a conhecer as maravilhas do universo exterior ao meu planeta natal, eu te conto que aqui mesmo existem uns recantos maneiros que valem o tempo dispendido e o esforço de alcançá-los sem transporte apropriado (nem mesmo uma poderosa moto de 1939), porém há que se ter ganas de aventura, curiosidade pelo desconhecido, paixão pelo inesperado e algumas roupas sobressalentes.
é sol, é sal, é sul.

quarta-feira, 19 de maio de 2004

I read the news today oh, boy

todos lêem jornais, né mesmo? e assistem noticiários na tv, ouvem no rádio e acompanham todos os acontecimentos do mundo pela internet. inclusive os profissionais da imprensa ou quem é ele mesmo a notícia, ou participante dela (excluindo vítimas fatais, incapacitados ou eremitas, obviamente).

sim, eu também sei o que está acontecendo por aí, e tenho reações e opiniões e palpites e vômitos e pesadelos e ataques de riso ou de solidariedade ou ganas assassinas, eu sou normal.

é que, por mais que a impotência pras mudanças até estimule o alheamento, a sensação de não ter nada com isso, o "que se foda, e daí?", mesmo resistindo a gente acaba se envolvendo com a manutenção do planeta de onde é inquilino, por motivos egoísticos de sobrevivência.

mas ao saber das notícias, o que eu tenho sentido mais do que tudo, mais do que seria aconselhável para a manutenção da ilusão cidadã é uma sensação de espectadora impedida de ver de perto, de aplaudir ou vaiar. uma distância extraterrestre.

e a inutilidade da opinião além do desabafo catártico, a ação sem alcance.

sabe, eu nunca quis carneiros e cabras pastando solenes no meu jardim, não partilhei dos sonhos hippies de comunidades alternativas fechadas e não viveria nem em cidade pequena, gosto da muvuca metropolitana. mas de vez em quando me parece tudo tão inútil, dos objetivos de longo prazo à maioria dos rituais adotados, por obrigação ou costume, nessa vida social que já veio malhada antes d'eu nascer.

quero isso não, obrigada.

esta exposição cotidiana à violência, tão incontrolável, violência física e psíquica, violência da intolerância absurda e desses valores aí que não são meus mas me cobram, tenho que viver me explicando como se devedora fosse? tenho que me submeter a umas regras insanas pra viver pacificamente?

bem, não devia, nesta altura da vida. mas acabo tendo.

falam muito das ditaduras cerceadoras de liberdade, mas juro que não tem tanta diferença na parte da autonomia individual quando um banco manda na sua vida, ou uma empresa de petróleo, ou um consórcio estrangeiro formado para o controle das águas potáveis, energia ou sementes do lugar onde você habita. ou quando uns políticos acabam com o futuro dos TEUS pimpolhos numa depositada básica e relâmpiga dos dólares da educação e saúde nas contas da Suíça.

nosso 1984 e a homogeneidade forçada pela hegemonia, o "consenso" consentido por preguiça e as discordâncias virando "ignorância" ou "rebeldia maligna". como nas ditaduras oficiais, só que nos tempos atuais a polícia é só um braço firme da "Justiça".

(pois é, né? que mania de dar opinião inútil.)

e as certezas? quantas certezas, dio mio. quanto absoluto, quanta Verdade Incontestável.

sim, eu sei como digo besteira, e muita.
também erro muito nas minhas avaliações, na minha defesa do que me parecia justo ou no ataque do que me parecia inaceitável e que acabo descobrindo não ser tão simples assim.
erro muito, mas por isso mesmo tenho tentado julgar menos e desconfiar das certezas.
(tentado, né? o que não me impede de estar cada vez mais intolerante com algumas posturas vigilantes e patrulheiras, algumas opiniões definitivas e algumas inofensivas manifestações de imaturidade e manezice, como a pretensão de "superioridade" intelectual dos que acabaram de descobrir que a Terra é redonda, que surpreeesa!)

eu sou normal e cheia de opiniões definitivas absolutas e incontestavelmente verdadeiras.

e acumulo conhecimento para minha diversão e lazer, mas um bom prato cheio de comida bem feita serve muito mais à Humanidade que todo esse saber acadêmico pretensioso em nossas prateleiras.

(ah, liga não, este desabafo catártico sem destinatários alivia a pressão borbulhante das opiniões reprimidas - tenho andado muito calada pra evitar discussões que não valem o esforço, que não mudam nada.
e minhas opiniões andam muito instáveis, e os espinhos do mundo muito ativos, e eu muito sem saco pra estender conversa).

aliás tenho andado muito descrente de qualquer tipo de intervenção individual, até o mais despretensioso, limitado e cotidiano exercício ativo de cidadania. de que adianta reclamar - mesmo educadamente - do lixo jogado no chão, do espertinho fura-fila, do cara que grita no celular no ônibus? se não me atingir diretamente, eu é que não vou me meter. no máximo, aquela cara de tsctsctsc, e chega de interação.
mas também não fico nervosa, me mordendo por dentro e tendo ataques de fígado.

eu só quero é ser feliz e andar tranquilamente na favela onde eu nasci.

quero ser surfista em Manoku do Oeste, ou no Arpoador mesmo.

quero desenhar feito o Jano, viajando com meus bloquinhos pelo mundo cruel e étonnant.

quero viajar nas telas, ouvir música em fones de ouvido e ignorar, ignorar com afinco e militância ignorativa o que me faz mal. alienação já.

quero curar minhas feridas todas todas todas totalmente.

quero boas notícias, e pra mim no momento há um tipo de boa notícia que ultrapassa todos os outros tipos.

meu amor, cadê você?
vamos pra Andromeda construir nossa cabana de titanato de estrôncio na beira do mar de éter.

segunda-feira, 17 de maio de 2004

acho que peguei gripe pelo msn (virus são virus) e soube de fonte confiável que não há hospitais em Manoku do Oeste.*
os pajés, ou feiticeiros, ou o que seja banham os doentes em infusões de ervas daninhas num tanque coletivo e quem piorar com o frio é abatido a tiros pra ajudar a seleção natural, porque a proliferação de fracos e doentes renitentes faz cair a cotação das ações de ervas daninhas curativas no mercado internacional.
________

(*) onde se encontra S trabalhando no momento (hoje não, que tá no tanque).
e sei lá onde fica Manoku do Oeste, mas passa do fim do mundo e não há torres, não há base, as ondas de todo tipo ficam retidas nas montanhas. não há luz elétrica nem civilização sobre rodas, só se chega lá nadando. desviando de tubarões assassinos famintos que comem surfistas.
e lá chegando, os nativos te recebem com flores, danças sensuais e beberagens exóticas e vasculham seus bolsos pra não deixar entrar nenhum resquício de capitalismo selvagem que possa contaminar a pura sociedade primitiva preservada. confiscam cheques, dólares, euros, cartões, comprovantes de depósito em paraísos fiscais, tudo.
_________

pp: ah sim, esqueci de explicar o funcionamento do msn numa terra sem computadores: vai-se pra boca do vulcão (em atividade moderada) e de lá transmitem-se os sinais de fumaça de longo alcance (sinais binários de fumaça) até o centro urbano mais próximo, na Tailândia, onde são digitalizados e enviados ao destinatário. a resposta segue o caminho inverso. demora um pouco mais que o normal, mas tudo bem, melhor que nada. as cartas levavam anos atravessando mares nos botes.

tatu
tubi ornotubi?
você sabe, eu não acredito em horóscopo. (sempre digo isto, seguido de alguma coisa lida num horóscopo de jornal vagaba qualquer).
mas é que os conselhos gerais amplos abrangentes dos horóscopos podem ser aquele toque que faltava, naquele momento específico. a luzinha que acende na hora certa, um pequeno impulso pra dar coragem. um textinho que parece escrito só pra você, seja você quem for, pelos astros alfabetizados.
por isso, quando leio, não leio só o meu signo, leio vizinhos, ascendente, lua e estrelinhas. tudo. reflexões prontas express sobre a vida diária, pra quem não tem tempo de fabricar os próprios clichês.
mas não é que de vez em quando ajuda? comprei um apartamento assim.
já tinha tentado negociar, desistido por causa do preço, a proprietária não aceitava o meu como parte do pagamento e não ia dar tempo de vender, tudo encerrado.
mas eu li que devia insistir numa coisa que desejava muito, que tudo daria certo, podia confiar nos céus. li depois de ver no mesmo jornal o anúncio do apartamento, de novo. mas o telefone era outro.
liguei, e tudo se transformou. a proprietária passou a bola prum corretor amigo seu, e minhas condições foram aceitas, e loguinho depois eu tava providenciando a mudança.
acontece.
e já viu dica mais redentora que esta, pra qualquer área e momento da vida, mas especialmente naquele minuto em que as dúvidas assaltantes já te levaram todos os pertences?
"chegou a hora de chutar o balde: não há porquê se submeter a situações humilhantes, em que suas necessidades não são respeitadas e onde não há troca harmoniosa e equilibrada.
seja implacável.
Urano, o céu, te dará cobertura".
(uia. ser implacável é tudo numa hora dessas).
então eu leio, mas não que acredite, entende? é só inspiração.
DESTIERRO

gente de un lado y del otro lado, gente
que ya no vive acá ni allá sino en el puente
de un lado el trabajo y del otro los parientes
y ese cordón de luz que cruza continentes
el puente es de aire;
es incoloro, es transparente
el puente que va desde tu pecho al mío
aunque no te tenga enfrente.

Jorge Drexler

(Segunda-feira, Maio 17, 2004 * 10:48 AM * Ciça Giannetti)

_____________________________________

mas já que você vai lá, tem coisa melhor, dela mesma.